Os últimos quatro meses foram tempos menos nublados, com céus menos opacos e paisagens mais límpidas. Com o confinamento global de repente a forçar uma menor circulação de automóveis, o encerramento de fábricas e a ter aviões parados em terra, desde março que o mundo assistiu a reduções drásticas, e que se tornaram históricas, dos níveis de poluição por dióxido de azoto (NO2), o gás reativo resultante, sobretudo, da queima de combustíveis fósseis a altas temperaturas, principalmente, nos motores de veículos motorizados e em processos industriais, “um excelente indicador da poluição associada à atividade humana”, segundo a associação ambientalista Zero.
Dados da Descartes Labs mostraram que entre março e a primeira semana de abril deste ano, os níveis de poluição por NO2 diminuíram 33% em Los Angeles e 70% na Índia, por exemplo. Mas, também em Portugal as reduções de poluição se fizeram notar, chegando aos 80% em alguns locais de Lisboa e aos 60% no Porto.
Mas, parece que a Europa, mais concretamente os 27 estados-membros da União Europeia (UE), não está no bom caminho. Com as populações a desconfinarem teme-se o regresso aos índices de poluição existentes antes de ser decretada a pandemia. Os alertas passarão assim de azuis para vermelhos, novamente.
A Comissão Europeia adverte num relatório desta sexta-feira, 26, que a maior parte dos países da UE não está no bom caminho para reduzir a poluição atmosférica e os impactos que provoca na saúde até 2030. A execução das novas regras europeias em matéria de ar limpo deverá ser melhorada, concluiu a comissão depois de avaliar os primeiros programas de medidas dos estados-membros para controlar as emissões atmosféricas. “Em toda a Europa, demasiados cidadãos continuam em risco por causa do ar que respiram. Precisamos de medidas mais eficazes para reduzir a poluição em muitos estados-membros e para combater as emissões atmosféricas em todos os setores, incluindo a agricultura, os transportes e a energia. Nunca houve uma melhor ocasião para assegurar essas mudanças: investir num ar mais limpo equivale a investir na saúde dos cidadãos e na melhoria do clima e poderá constituir o novo impulso de que a nossa economia necessita para avançar. É essa a ideia subjacente ao Pacto Ecológico Europeu e a lógica exigida pela situação ambiental”, explica Virginijus Sinkevičius, comissário responsável pelo ambiente, oceanos e pescas.
Em toda a Europa, demasiados cidadãos continuam em risco por causa do ar que respiram
Virginijus Sinkevičius, comissário europeu responsável pelo ambiente, oceanos e pescas
Desde a Revolução Industrial que a qualidade do ar tem vindo a deteriorar-se consideravelmente e a culpa está nas atividades praticadas pelas pessoas. O aumento da produção industrial e de energia, a queima de combustíveis fósseis e biomassa, bem como o aumento do tráfego rodoviário, contribuem para a poluição do ar e um meio ambiente cada vez menos verde. O número de vítimas humanas por má qualidade do ar é pior do que por acidentes de trânsito, tornando-a a principal causa ambiental de morte prematura na UE, com mais de 390 mil mortes a cada ano. Também afeta a qualidade de vida, causando ou agravando problemas respiratórios e doenças como a asma.
O número de vítimas humanas por má qualidade do ar é pior do que por acidentes de trânsito, tornando-a a principal causa ambiental de morte prematura na União Europeia, com mais de 390 mil mortes a cada ano
Há sete anos, a Comissão Europeia adotou um pacote de políticas para o ar limpo que estabelece objetivos para 2020 e 2030. Na próxima década, cinco importantes poluentes atmosféricos deverão registar níveis muito mais baixos, reduzindo óxidos de azoto (Nox) em – 63%, compostos orgânicos voláteis não-metânicos (COVNM) em – 40%, dióxido de enxofre (SO2) em – 79%, amoníaco (NH3) em – 19% e partículas finas (PM2.5) em – 49%.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), as emissões de dióxido de carbono (CO2) da UE devem registar uma queda este ano, nunca antes vista desde o final dos anos 1950 do século XX. “Em 2020, estamos a registar os mesmos níveis de emissões europeias do que há 70 anos. Mas, é claro que se impõe a questão de como vamos evitar que as emissões subam, conciliando-as com a recuperação económica na Europa”, alertou Fatih Birol, diretor executivo da AIE. Aumentar a eficiência energética, a participação de combustíveis renováveis e a eletrificação são algumas das recomendações daquela instituição.