A ser verdade que o centro do poder económico se está a deslocar para a Ásia, como argumentam alguns, então essa transferência pode ser vista também no crescimento dos grandes motores económicos do mundo de hoje: as megacidades.
Em 2025, das 15 cidades com mais de 15 milhões de habitantes no mundo, nove serão asiáticas, competindo entre si pela atração de investimento e mão-de-obra (ver infografia).
Estes aglomerados, muito provavelmente, sobrepor-se-ão aos Estados como centros de poder. A Europa não terá nenhuma destas novas urbes, mas cidades ancestrais como Paris e Londres continuarão a ocupar lugar de destaque no PIB Mundial embora sejam facilmente ultrapassadas em população por sítios como Xangai, onde até ao final deste século veremos se é possível 100 milhões de pessoas partilharem um mesmo centro urbano. Lagos, Manila, Cidade do México, Jacarta, e muitas outras, poderão também reclamar um estatuto económico mais consentâneo.
É um fenómeno, global, o do crescimento das megametrópoles, menos no chamado mundo desenvolvido: até 2020, a população urbana mundial, que já é metade do total, atingirá os 4,2 mil milhões de pessoas.
Em pouco mais do que uma década, nascerão 136 novas cidades tão-só grandes: cem na China, 13 na Índia e oito na América Latina. Virão juntar-se ao chamado grupo das C-600, as 600 maiores do globo, já responsáveis por 60% do PIB mundial -e uma percentagem idêntica ou superior de emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. Até 2050, os citadinos serão 70% do total dos humanos, segundo a ONU.
O crescimento das urbes trará novos problemas: só na Índia, a população urbana aumentará em 275 milhões. Mumbai, outra das que poderá chegar a uns astronómicos 100 milhões, é bem o exemplo de outro dos problemas que assolarão estes novos centros de poder: uma estratificação social digna da Idade Média.
Exagero? Basta pensar que a nova casa do bilionário indiano Mukesh Ambani, que tem 27 andares, heliportos, jardins suspensos e piscinas, fica a um passo de Dharavi, o maior subúrbio do mundo, onde 1 milhão de pessoas se acotovelam em dois quilómetros quadrados e onde se luta diariamente pelo acesso a uma dezena de pontos de abastecimento de água.
Muitos especialistas estão de acordo que a cidade é e será ainda mais um organismo altamente estratificado: “Onde dantes cavaleiros e muralhas protegiam a aristocracia, surgem agora redes eletrificadas e companhias privadas de segurança ” escreve, por exemplo, Parag Khanna, autor de How to Run the World.
As megametrópoles enfrentarão sérios problemas de transporte, alimentação e salubridade: a esperança de vida em Mumbai, por exemplo, já é hoje sete anos menor do que no resto da Índia.
Estes aglomerados urbanos expulsarão, segundo prevê Joel Kotkin investigador na Universidade de Chapman, na Califórnia, mais e mais famílias de classe média para a periferia e serão cada vez mais locais de pobreza. Impossível? Kotkin dá um número para o apoiar: um estudo recente feito na área metropolitana de Londres revelou que, numa cidade de 8 milhões de pessoas, cerca de um milhão vive de subsídios e apoios sociais. Descontado o custo de vida aos rendimentos dos pais, metade das crianças da “inner London” vive na pobreza. Há 30 anos, Manhattan era o 17.º município mais desigual dos EUA. Hoje é o primeiro. O último quinto dos assalariados mais bem pagos ganha cerca de 52 vezes o que ganha o da base da pirâmide. Há 40 anos, apenas um em cada seis cidadãos de Mumbai vivia em bairros de lata, hoje são mais de metade.
O mundo das megametrópoles pode muito bem ser um mundo cada vez menos democrático. Até cidades-estado tidas como grandes sucessos económicos poderão ter outras formas de organização política. Pense-se no Dubai e no Abu Dhabi, com os seus elegantes e enormes edifícios pensados por grandes arquitetos ocidentais, as suas sucursais do Guggenheim e do Louvre, ou as extensões de grandes universidades do globo. Estas verdadeiras cidade-estado querem importar tecnologia e brinquedos ocidentais, como pistas cobertas de ski no gelo, e assim trazer as mais abastadas elites do mundo aos seus centros. Mas, como escreve ainda Parag Khanna, importar valores ocidentais como a liberdade de expressão e de credo não faz, nem fará nunca, parte do negócio.