Primeiro, veio o terramoto, que arrasou a capital do país. Agora, chegam os gangues armados, semeando a violência pelas ruas, onde o cheiro dos corpos putrefactos torna o ar irrespirável. Sem tempo para chorar os seus mortos, a população de Port-au-Prince luta, desesperada, pela sobrevivência, numa cidade onde tudo falta – até a paz
Uma multidão, correndo como uma manada assustada, ocupa toda a largura da Grand Rue, a artéria principal do centro de Port-au-Prince. Homens e mulheres, velhos e crianças, fogem o mais depressa possível e na mesma direcção – a contrária ao local aonde a BIM, a Brigada de Intervenção Motorizada do Haiti, acaba de chegar, disposta a acabar com os saques que se multiplicam nas lojas que ruíram, naquela zona comercial, na sequência do terramoto do passado dia 12.
Os polícias, com coletes à prova de bala, capacete e shotguns, furam um enxame de gente. Gritam e disparam tiros para o ar mas têm ordens expressas do chefe da segurança presidencial: atirar a matar contra aqueles que não se rendam nem entreguem as suas armas. É a tentativa desesperada de colocar ordem numa situação que ameaça tornar ainda mais insustentável a vida dos habitantes da capital do Haiti: uma cidade que, já antes do sismo, era uma das mais pobres e violentas do mundo.