Quem não conhece a história de Pedro e o Lobo? Vezes sem conta, o rapaz corria desesperado a gritar que vinha aí um lobo, para se divertir à custa do pânico dos colegas pastores, e depois ria que nem um perdido com a brincadeira, pois não vinha lá lobo nenhum. Tantas vezes isto sucedeu que um dia o animal feroz chegou mesmo e já ninguém o levou a sério.
Por quase quarenta vezes Donald Trump anunciou um acordo iminente com o Irão e por quase quarenta vezes não aconteceu nada. Fê-lo mentindo, com o objetivo óbvio de acalmar os mercados financeiros, só que a desmesurada insistência na estratégia acabou por destruir a pouca credibilidade que esta administração ainda mantinha. Hoje ninguém acredita nada do que sai da boca do governo norte-americano, e com razão.
Os Estados Unidos da América cumpriram em tempos a função de um farol de liberdade para o mundo ocidental. Foram eles que, depois de alguma hesitação e sobretudo após o ataque japonês traiçoeiro que sofreram em Pearl Harbour– o Dia da Infâmia, como lhe chamou o presidente Franklin D. Roosevelt – vieram em força combater na Europa e Ásia as nações do Eixo até à vitória dos Aliados.
Ao longo da sua história, Washington recebeu imigrantes de todo o mundo, os quais trouxeram uma riqueza humana porventura única num mesmo espaço geográfico e transformaram aquele território num país realmente grande e único.
Mas desde o momento que os seus dirigentes enveredaram por uma política imperialista e se arvoraram em polícias do mundo, iniciaram a sua inexorável queda. Apesar do poderio militar de que dispunham perderam as guerras em que se envolveram, como no Vietname e Afeganistão, com elevados custos sociais e políticos. Afinal, nas guerras como na vida, quem vence é a inteligência e não a força, como se está a ver de novo no Irão.
No afã de combater a influência soviética no sul do seu continente puseram a CIA a sabotar governos eleitos democraticamente, com especiais preocupações sociais em sociedades tão deslaçadas como aquelas. Acabaram a promover golpes de estado sangrentos, a passar por cima da soberania alheia, a aplicar boicotes económicos a economias frágeis e a destituir governos estabelecidos.
Fizeram mais. Enviaram missionários cristãos que, para lá de espalhar a fé, trabalharam para combater as ideologias que promoviam a igualdade de oportunidades e a justiça social, dando assim origem a teologias tipicamente latino-americanas como a Teologia da Libertação, de inspiração católica, e a Teologia do Evangelho Integral, de origem protestante.
Na persistente rota de decadência que os EUA têm vindo a trilhar, elegeram o seu atual Presidente, o pior político que pisou a Casa Branca desde que há memória, e uma pessoa execrável, que é claramente racista, xenófobo, misógino, machista, ignorante, rancoroso, mentiroso compulsivo e um narcisista patológico. Aliás, são cada vez mais aqueles que no seu país e em todo o mundo se questionam sobre a saúde mental da figura.
O problema é que a democracia americana enferma de inúmeras disfunções como, entre outras, o facto de poder eleger o candidato menos votado pelo sufrágio popular, e ter que ser milionário para pensar em se candidatar.
Este segundo mandato de Trump tem sido um desastre completo. Por isso, neste momento, apresenta a taxa de popularidade mais baixa de sempre de qualquer presidente, nesta fase do exercício. Por outro lado, o seu governo é tão desastroso quanto ele.
Basta lembrar desde logo o vice-presidente JD Vance, cujo desporto preferido é dizer mal dos europeus, mas também os secretários do Tesouro, Scott Bessent, um homem que vem da alta finança, da Saúde, Robert F. Kennedy Jr., um negacionista anti-vacinas, da Guerra, Pete Hegseth, uma espécie de cowboy ianque, e o secretário de Estado, uma espécie de contorcionista de circo, entre outros.
O ódio doentio de Trump a Obama levou-o a rasgar o acordo existente com o Irão e a envolver-se numa guerra contra o país dos aiatolas, ao contrário do que tinha prometido aos americanos, acabando por criar uma situação muito pior. Agora não sabe como sair do atoleiro em que se meteu, e vê-se com o Estreito de Ormuz fechado e a economia mundial prejudicada por sua culpa. Quase dá pena ver o desespero patético em que Trump se encontra. Levam-no tanto a sério como ao seu homónimo Pato Donald. Apesar do anunciado memorando de entendimento, o ambiente geral é de descrença num paz real naquela região do mundo.
Lamento pela América, que em vez ter voltado a ser grande, ao contrário do slogan triunfalista MAGA, está em declínio, cada vez mais isolada e menos relevante no mundo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.