E se um dia alguém inventasse uma forma de influenciar os eleitores, de modo a enviar-lhes mensagens que não tivessem de passar pelo escrutínio do jornalismo sério e pelo compromisso deontológico dos jornalistas?
E se essas mensagens pudessem não ser lá muito rigorosas, nem mesmo verdadeiras, mas tivessem o potencial de provocar reações emocionais no grande público, de modo a levá-los ao encontro dos nossos objetivos políticos?
E se num futuro próximo se conseguisse convencer a população da existência de pessoas inventadas à medida, com voz, cara, imagem e discurso, quase perfeitas, levando o público a pensar que tais pessoas são mesmo de carne e osso e apoiam as nossas ideias políticas?
Pois bem, tudo isso já existe.
A loucura da utilização desregrada e desonesta das redes sociais é sobejamente conhecida, mas a Inteligência Artificial (IA) veio agravar profundamente a situação no sentido da manipulação descarada do público, ao explorar os sentimentos mais profundos das pessoas.
Foi o caso de uma figura inventada através da IA, nos Estados Unidos, que recebeu o nome de Jessica Foster, “militar loira e fã incondicional de Trump”, uma espécie de “soldado MAGA”, que surgiu no Instagram como influenciadora, mas que afinal, mesmo não existindo, acabou por levar ao engano cerca de um milhão de seguidores.
De facto, era demasiado perfeita quando surgia impecável na sua farda, com um “sorriso patriótico ideal e saída de um filme de Hollywood”. A falsa militar norte-americana “partilhava fotos em bases aéreas, ao lado de caças e em mensagens de apoio fervoroso a Donald Trump”. Mas não passava de uma criação dos algoritmos a fim de explorar o patriotismo e engajá-lo a um determinado interesse político.
Só que o facto de umas vezes surgir com a farda de sargento, outras com insígnias das tropas de elite que levariam décadas a alcançar e medalhas inexistentes, levou tanto veteranos de guerra como analistas digitais a desconfiar, segundo o Washington Post.
O DN avança que a investigação concluiu que “o objetivo da conta não era apenas a propaganda política, mas o lucro direto. A biografia daquela figura redirecionava os seguidores para uma conta no Fanvue — uma plataforma concorrente do OnlyFans que se especializou em modelos gerados por IA. Ali, os seguidores eram convidados a pagar subscrições mensais para ver conteúdo ‘exclusivo’ e mais íntimo” daquela militar. “Estes criadores utilizam ferramentas como o Midjourney e o Stable Diffusion para criar perfis que apelam a nichos específicos – desde o militarismo patriótico até ao fitness – com o intuito de canalizar tráfego para plataformas onde se comercializa a nudez gerada por IA.”
A presente falta de regulação sobre a verdadeira identidade dos indivíduos que se escondem atrás de empresas de fachada, utilizando pseudónimos digitais, e que criam estas falsificações com intuitos dolosos de política ou lucro estão a promover cada vez mais um mundo de faz de conta.
Infelizmente já há canais de televisão americanos a utilizar imagens de recrutas militares geradas por IA em reportagens reais, os chamados deep fakes. E quando se começa a manipular a informação está tudo estragado.
Neste contexto surge cada vez mais oportuna e incisiva a encíclica de Leão XIV “Magnifica humanitas”, que alerta para os perigos de desumanização decorrente do uso porventura excessivo e certamente descontrolado da IA que presentemente se verifica: “(…) impõem-se à nossa consciência questões decisivas, que não podem já ser evitadas: Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?”
Se a política já estava transformada num teatro de enganos, agora corre o sério risco de vir a ser uma espécie de peste negra do século XXI. É só uma questão de tempo.
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