Parece que o Caminho Português de Santiago atraiu cerca de 100 mil peregrinos em 2025, segundo dados do gabinete do peregrino da Catedral de Santiago de Compostela, na Galiza, Espanha. Esta estatística baseia-se no número de indivíduos que receberam o certificado que atesta a conclusão do Caminho de Santiago. Segundo um comunicado da Catedral de Tui, um total de 100.452 peregrinos percorreram este caminho até 14 de dezembro, o que representa um aumento de 6% em relação ao ano anterior.
O Caminho de Santiago atrai católicos e muitas outras pessoas que não se identificam com essa prática religiosa, mas que respondem assim a um apelo interior à espiritualidade.
A ideia da jornada é fundamental na economia da peregrinação. A vida é uma viagem. Desde que nascemos que estamos em movimento de algum lugar para outro. Mesmo que nunca tenhamos saído do nosso espaço geográfico de origem, saímos da infância para a adolescência e desta para a juventude e a idade adulta. Saímos da ignorância para o conhecimento ao estudarmos. Saímos da inconsciência para a consciência e a sabedoria que os anos nos vão conferindo. Saímos de dentro de nós próprios para o mundo que nos rodeia e para os outros.
Outra ideia fundamental é a do enfrentamento dos desafios. Uma viagem física traz consigo sempre alguns imponderáveis a que importa fazer frente e ultrapassar. Tal como na vida humana, que consta de um desafio permanente, a viagem em si mesma constitui um desafio dos nossos limites, tanto das forças físicas como do poder de decisão e da capacidade de improviso. A gestão do desconhecido é talvez uma das mais eloquentes oportunidades de crescimento pessoal e relacional.
Depois há ainda o prazer da descoberta. Só quando abandonamos a nossa zona de conforto somos capazes de descobrir pessoas e coisas novas. Novas paisagens, novas aprendizagens. Por último, a satisfação de chegar ao fim é a cereja no topo do bolo.
No fundo, as viagens com características de resposta ao apelo da espiritualidade como a do Caminho de Santiago, mas também outras como as peregrinações a santuários ou à Terra Santa, por exemplo, são muitas vezes viagens ao interior de si mesmo. Não são mais do que um reflexo da peregrinação interior que qualquer ser humano que sente e pensa pode e deve fazer.
A associação instintiva que todo o peregrino faz, com maior ou menor consciência disso, da viagem física à viagem do arco da vida humana, a gestão dos desafios que encontra pela frente nessa jornada e o prazer, não só da descoberta que a jornada proporciona, mas sobretudo de ter sido capaz de chegar ao fim, talvez ajudem a explicar o sucesso destas rotas de peregrinação. No fundo, como diz a sabedoria popular, parar é morrer.
Quer o reconheçamos ou não, a dimensão espiritual é intrínseca ao ser humano, está inscrita nos seus genes. A grande questão é a forma de lhe dar espaço. E aí as opções variam muito. Até meados do século XX a resposta mais corrente no Ocidente era seguir uma religião. Depois da segunda guerra mundial as coisas começaram a mudar, quando o racionalismo e o humanismo ocuparam o lugar da religião que se tinha enredado em erros próprios.
Hoje vai surgindo a noção de que o ser humano não se completa apenas pela imanência mas precisa da transcendência. E ela vai adquirindo diferentes formas, expressando-se tanto pela busca de significado, propósito e de conexão com algo superior que está para lá do material, como através da necessidade de adquirir autoconhecimento.
Mas também pela necessidade de exercer compaixão, amor e possibilitar uma transformação interior através da palavra e da acção, mesmo perante a insuficiência humana, buscando uma existência mais plena e harmoniosa.
Da mesma forma como para os amantes a Lua não é apenas um satélite natural da Terra, para Miguel Ângelo o Sol não era só uma estrela, era também “a sombra de Deus”.
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