A imagem que melhor poderá caracterizar a intervenção pública de Ventura deve ser a do martelo pneumático, uma ferramenta que serve para produzir imenso ruído, capaz de quase rebentar os tímpanos a qualquer um, e fazer grandes buracos no chão.
Sobre o ruído estamos conversados. Basta ouvir a figura que nos entra constantemente pela casa dentro, via televisão. Mesmo com o som desligado dá para ver a zanga constante, a agressividade desbragada e a postura de desafio a tudo e a todos, de quem pensa que é dono e senhor de todas as razões do mundo.
Com o som ligado então nem se fala. É uma berraria constante a propósito de tudo e de nada, num volume, registo e tom de voz que agridem quem ouve e incomoda mesmo quem não quer ouvir. Um autêntico martelo pneumático desses que se utilizam nas obras para abrir buracos na estrada. Mas o problema maior nem é o som desagradável e perturbador, mas sim os buracos que este martelo pneumático provoca um pouco por todo o lado no nosso chão comum, isto é, na sociedade portuguesa.
Sabemos que os populismos – essa perigosa doença adulta das democracias – se afirma sempre pela divisão entre os cidadãos, das maiorias contra as minorias, do povo contra as elites e dos nacionais contra os estrangeiros, em especial os migrantes. A técnica é fazer crer que as dificuldades económicas da população em geral se devem a determinadas minorias que se acusa de serem privilegiadas, de roubarem os empregos, e de provocarem insegurança e criminalidade, mesmo que nada disso seja realmente verdade.
Portanto, aqueles que se deixam levar pelo canto da sereia populista começam a pensar que a culpa de não conseguirem subir no elevador social e alcançar melhor nível de vida não é difusa, tem nome e rosto. Daí a aprofundar divisões no tecido social e a provocar deslaçamento vai apenas um passo. São os tais buracos. Torna-se assim muito mais fácil e confortável começar a destilar ódio contra os grupos de indivíduos alvo da retórica política, do que cada um aprender a lidar com a sua frustração pessoal.
A passagem de Ventura e do Chega pelo caminho estreito da vida política deixa atrás de si um conjunto de crateras onde muitos irão cair desamparados, inadvertidamente, e com resultados dolorosos. Basta ver a desilusão, o arrependimento, e por vezes mesmo o desnorte de muitos que passaram por esse partido da extrema-direita. Se antes estavam mal, depois ainda ficaram ainda pior. Mesmos os fundadores que ficaram pelo caminho são dos mais dececionados com as práticas autoritárias e manipuladoras de André Ventura.
De facto, nada se constrói na vida apenas com ruído e abertura de buracos no nosso chão comum, se acaso não se edificar nada de sólido depois disso. O drama das oposições costuma ser o de fazerem bons diagnósticos, apontarem o que está mal e alertarem para o erro, mas depois não serem capazes de indicar um caminho alternativo que seja adequado, sério e exequível.
A política da terra queimada e do bota-abaixo nunca trará nenhum contributo minimamente válido para melhorar a vida colectiva. O que estamos a assistir já não é só à conversa de café ou de taberna que se veio instalar na praça pública. Há mais vida para além da indignação. Aquilo que só se dizia sob a influência dos vapores do álcool grita-se agora nas redes sociais. Mas é mais do que isso. É o discurso de ódio contra as mulheres, os negros, os estrangeiros e as minorias, de forma a endossar-lhes todo o ressentimento e frustração pelas dificuldades da própria condição.
Este esburacar constante do chão comum vai criar alçapões perigosos no futuro. Uma sociedade economicamente deslaçada ainda pode percorrer o chão comum e sobreviver, embora com dificuldade. Mas quando fica dividida pelo ódio e a mentira torna-se intransitável, pois o chão passa a ser um conjunto de crateras por onde não é possível caminhar em segurança. E aí chegados será demasiado tarde para acordar do pesadelo.
Veja-se este caso bem ilustrativo da gentinha de mão de Ventura. Os funcionários da Assembleia da República apresentaram uma queixa onde denunciam o “descontrolo de atitudes do grupo parlamentar do Chega”, que “afetam profundamente a dignidade, saúde mental e integridade física dos trabalhadores”, e pediram ao Parlamento medidas urgentes de proteção.
Há dias acabei de ler o livro do jornalista Miguel Carvalho “Por dentro do Chega” (ed. Objectiva), um excelente trabalho de investigação de vários anos. Quando terminei senti asco e vontade de vomitar. É a isto que me refiro.
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