Rosa Coxa é uma personagem secundária de Esteiros, o romance que Soeiro Pereira Gomes dedicou aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”. Sabemos quase de raspão como ganhou a alcunha. “Sozinha em casa, enquanto a mãe urdia teias na fábrica, caiu da cama abaixo e ficou aleijadinha.” Parece um pormenor sem importância, mas diz tudo de um sistema que obrigava as mães a sair de casa para trabalhar, deixando em casa sozinhas – ou entregues a irmãos pouco mais velhos – crianças de colo. Não trabalhar não era uma opção para estas famílias que contavam os tostões e sentiam na barriga o peso da fome. Estou a usar os verbos no passado e não devia. Os 80 anos que se passaram desde a primeira edição do livro mudaram muita coisa, mas não mudaram tudo.
Sim, o 25 de Abril proibiu o trabalho infantil, há escolas públicas para todos e creches pagas pelo Estado a quem tem a sorte de conseguir uma vaga. Mas a necessidade de sobrevivência continua a obrigar pais e mães a negligenciar os filhos, mais do que gostamos de admitir. Serão muito raros (felizmente) os casos em que crianças pequenas ficam entregues à própria sorte para que os pais vão trabalhar. Mas não é disso que falo. Não é nisso que penso enquanto leio sobre a má sorte da Rosa Coxa.
Pensem em todas as vezes em que, para cumprir um prazo, para estar numa reunião, para atender uma chamada de trabalho, acabaram por deixar os vossos filhos sozinhos diante de um ecrã. A comparação entre a mãe que sai para a fábrica e deixa a bebé sozinha e aquela que a larga em frente de um telefone durante horas parecerá grotesca e exagerada. Mas só se se ignorar que na esmagadora maioria dos casos os pais têm essa atitude não por opção, mas pela pressão do trabalho, e que todos os dias há novas evidências sobre os impactos cognitivos e sociais da exposição precoce e intensa a ecrãs e redes sociais.
Antes que se levante um coro indignado, deixem-me que vos explique que não há nesta minha observação nenhuma condenação, nenhum dedo apontado. Isto não é sobre culpa. Não é sobre falhar como pai. É sobre um sistema neoliberal montado para conseguir explorar-nos até ao fim, é sobre uma economia da atenção que nos suga, é sobre como todos os avanços tecnológicos não serviram, na maioria dos casos, para que pudéssemos trabalhar menos horas e dedicar mais tempo à família, por exemplo. É sobre um sistema que até pode não nos obrigar a estar fisicamente no lugar onde trabalhamos, mas nos impede de estar plenamente nos lugares em que vivemos.
E, claro, vivendo tantas vezes longe das famílias que podiam servir de rede para criar os nossos filhos, o problema agrava-se. “Desde que descobri os vídeos de patos a dançar, finalmente consigo trabalhar”, desabafava comigo há dias a mãe de dois filhos pequenos, que trabalha em casa e não tem com quem dividir o cuidado deles fora das horas da creche. Comentou a maravilha de os ter uma manhã inteira enfeitiçados pelo YouTube com um misto de alívio e epifania. E não há como a criticar, sabendo que não tem escolha e que o cansaço das noites mal dormidas e das alvoradas ao amanhecer começa a fazer os seus estragos.
Em julho de 2025, o New York Times escreveu que “pensar está a tornar-se um luxo”, num texto no qual se explica que enquanto os filhos dos mais pobres passam horas em frente a ecrãs e apresentam níveis cada vez piores de capacidade de compreensão e leitura, os ricos gastam fortunas a garantir atividades offline para os filhos, contratam babysitters a quem exigem em contratos que não usem telemóveis e põem-nos em escolas onde os smartphones são proibidos. Fugir à “ama digital” tem um custo que nem todos conseguem suportar, da mesma maneira que nem todos conseguem fugir à comida ultraprocessada e consumir só produtos biológicos.
Este é também (embora não exclusivamente) um problema de classe. E a questão é que a desigualdade, que já é grande no acesso à alimentação saudável e a cuidados de saúde, vai cada vez mais revelar-se em termos cognitivos, à medida que vários indicadores mostram que crianças mais expostas a ecrãs têm menor capacidade de concentração, mais dificuldade em desenvolver um pensamento abstrato, menos pensamento crítico, menos empatia e resistência à frustração e pior motricidade fina. A maneira como estamos a moldar os cérebros dos nossos filhos pode ter impactos sérios não só no tipo de trabalhos que conseguirão executar, mas acima de tudo (e isso é que é verdadeiramente preocupante) na sociedade do futuro. Que sociedade será essa se uma massa cada vez maior de cidadãos tiver capacidades cognitivas limitadas? Que elevador social poderá existir nessas circunstâncias? E quanto tempo levará até que alguém use esses atributos cognitivos como forma de legitimação da desigualdade e de ataque ao voto universal?
Em muitos casos, deixar uma criança sozinha em frente ao ecrã não é uma decisão livre e consciente. É o produto de circunstâncias, que misturam um capitalismo predatório, a falta de direitos laborais, a falha de políticas de apoio à família e a exaustão produzida pela exigência de estar permanente ligado. Mas as decisões para ajudar estes pais a não serem empurrados para a “ama digital” podem e devem ser conscientes e coletivas. Expandir a proibição de telefones com internet nas escolas públicas faz parte desse caminho, mas não chega. É preciso exigir direitos no trabalho para os pais, creches públicas e gratuitas, infraestruturas comunitárias para práticas culturais e desportivas. E, sobretudo, ter consciência do custo que pagaremos todos quando essas crianças crescerem com cérebros formados na rapidez do TikTok, na falta de empatia dos grupos de WhatsApp, na ânsia da dopamina dos likes e na artificialização da vida feita em função das aparências como se estivéssemos sempre dentro do Instagram.
A Rosa Coxa do século XXI não é a que caiu da cama e ficou aleijada numa perna. Não precisa sequer de ser filha de pais miseráveis pagos à jorna. Mas pagará o preço de ter sido criada num sistema que olha para a parentalidade como um custo económico, que privilegia o lucro acima de qualquer valor e que normaliza a desigualdade como se ela não fosse o produto de escolhas.