Na campanha para as legislativas de 1991, o então secretário-geral socialista, Jorge Sampaio, perante uma plateia exclusivamente formada por pequenos agricultores, no Portugal profundo, falou dos números do setor relativos à “última década”. O líder socialista podia ter dito “os últimos dez anos”. Na qualidade de repórter, o autor destas linhas acompanhava a campanha do PS. Olhando em volta, era óbvio que boa parte da audiência não identificava imediatamente a expressão “década”. Ao mesmo tempo, na Guarda, Cavaco Silva, líder do PSD, dizia que, graças à sua governação, tinham-se vendido “muitos mais frigoríficos!”. Toda a gente percebeu. Episódios como estes ajudam a explicar a segunda maioria de Cavaco e a posterior substituição de Sampaio na liderança socialista.
A “década” é um exemplo caricato do “falar caro” de Jorge Sampaio. Palavroso, urbano, sofisticado, tímido, ele nunca foi verdadeiramente compreendido pelos portugueses. Ainda assim, o eleitorado viu-o e confiou nele como um Presidente da República credível. O sexto sentido que tantas vezes guia eleitores pouco esclarecidos via ali um homem sério e bem-intencionado. Para além disso, era profundamente humano. Querem um testemunho?
Foi ainda como estagiário de jornalismo que conheci Jorge Sampaio. Recebeu-me no seu gabinete da Rua da Emenda, em Lisboa, então sede nacional do PS. No final da conversa que ali me levava, interessou-se pela minha vida pessoal e preocupou-se com os meus estudos: “Acabe o curso. Vai ver que precisará dele no futuro.” Era o Jorge Sampaio pessoa mais velha a aconselhar um jovem que não conhecia de parte nenhuma. Despendeu uns bons 20 minutos do seu tempo a interessar-se pelo interlocutor, pela sua vida, pelas suas expetativas, pelos seus sonhos… Nada o obrigava a isso. Nunca mais o esqueci.
Por detrás de um certo cinzentismo que o seu partido não perdoou, Jorge Sampaio tem essa particularidade de surpreender. Foi isso que aconteceu quando se candidatou à Câmara de Lisboa; quando se coligou ao PCP para a ganhar; quando nomeou Pedro Santana Lopes; e quando o despediu. Mas não se esquece aquela entrevista, em direto, na CNN, para defender a causa de Timor, após o referendo que ditou a independência do território. De repente, o homem palavroso que poucos entendiam quando discursava, revelou um inglês objetivo, certeiro, fluente e emotivo que virou a opinião pública mundial. Talvez a mãe inglesa, que esteve na origem do seu “bilinguismo” tenha uma parte do mérito do final feliz em Timor…
Essa entrevista não foi o menor dos serviços que o Presidente Jorge Sampaio prestou a Portugal. Nomeado enviado especial da ONU na luta contra a tuberculose, depois representante das Nações Unidas na Organização da Aliança para as Civilizações, convidado para essas missões especiais por dois secretários-gerais da ONU distintos, Jorge Sampaio é um dos portugueses mais prestigiados de sempre. De lágrima fácil, mas de ideias claras, Sampaio acaba de receber um dos maiores galardões que podem ser atribuídos a uma personalidade internacional, o Prémio Nelson Mandela. Apesar da homenagem desta semana, na Gulbenkian, o reconhecimento público por esta distinção foi insuficiente, talvez porque o ex-PR soube manter, desde que saiu de Belém, a discrição e a humildade que outros não mantiveram. Por falar pouco, as suas palavras pesam mais. É dos únicos verdadeiros senadores na plena posse das suas capacidades e o seu conselho deve ser aproveitado nos tempos conturbados que se seguirão ao período eleitoral que vivemos.
Embora de ascendência britânica, Sampaio não deixa de ser um de nós. Fiz-lhe, em sua casa, uma entrevista, quando acabava de ser eleito para o seu primeiro mandato em Belém. Na cozinha, havia bacalhau de molho. Isso diz muito.