Na negociação entre a Grécia e os restantes países do Eurogrupo, nada é a preto e branco. De um lado não estão os usurários e do outro os explorados, nem de um lado estão os cumpridores e do outro os parasitas. O que nos interessa, em Portugal, é discernir com racionalidade. Como eleitor, não me interessa se o Governo do Syriza é composto por um punhado de bravos dispostos a imolarem-se pelo seu povo. O que me interessa é saber o que ganho eu (grego ou português) com isso. Não adianta que o Syriza se destaque por ser o primeiro Governo eleito a tentar cumprir, mesmo, promessas eleitorais. Não me interessa votar em propostas que não vinguem. ?O que quero saber é se podem ser cumpridas. Ponto. Se o Syriza fracassar, não me interessa de quem é a culpa: dos alemães, do Passos, da Maria Luís ou do poder financeiro internacional. Para o meu bolso, para a minha vida quotidiana, isso é irrelevante. Não vale a pena votar num mártir.
É verdade que o Syriza já mudou o chip. Exemplo de bravata sem consequência, foi o do anúncio do aumento do salário mínimo, logo adiado para não se sabe bem quando. Mas os eleitores do Syriza serão compreensivos. Por muito pouco que o seu governo consiga, isso será celebrado como o início de uma nova era. David terá ferido Golias e os gregos ficarão menos mal do que antes.
E este é o pânico de Passos Coelho. Sejamos francos: Portugal não podia alinhar, sozinho, com a Grécia. Por dois motivos: um de ordem externa e outro de ordem interna. O primeiro tem a ver com a imagem do País. Uma aliança com a Grécia seria… uma “confissão”. Não era bom, nem para gregos nem para portugueses. Atrapalhavam-se um ao outro. Os dois países mais frágeis da Zona Euro revelariam a sua natureza. E, em vez de ficarem um pouco mais fortes, exibiriam fraqueza ao quadrado, o que potenciaria o seu isolamento. Uma aproximação à Grécia teria de incluir, pelo menos, a Espanha, a Irlanda, Chipre, a Itália e conquistar para a causa o socialista(?) François Hollande. Numa tal ?”coligação”, Portugal ?diluiria a sua fraqueza, em vez de a evidenciar.
Mas Portugal não precisava de pedir “dureza” ao Governo alemão, contra a Grécia. Fazê-lo, além de desnecessário, foi uma prova de falha de caráter do Governo, que se comportou como o pequeno mastim de Merkel, e, mais grave, abriu um precedente que se pode virar contra nós. Arriscaria dizer que só o fez… a pedido dos alemães.
Mas porquê fazer esse frete e assumir essa desprezível atitude? Pelo tal fator de ordem interna. É que qualquer pequena vitória da Grécia do Syriza dará argumentos à oposição, em Portugal. Repare-se no raciocínio: “Então Portugal, que tudo cumpriu, continua a ser castigado pela austeridade e a Grécia, que prevaricou, leva o prémio? O que dirão os nossos eleitores? Pior: em quem votarão em outubro?”
Paulo Portas, espertalhão, percebeu tudo. E quis virar as declarações anti-troika de Jean-Claude Juncker a seu favor. Ele sabe que PSD e CDS também podem ganhar com uma vitória do Syriza. Se a Grécia obtiver melhores condições, o Governo português pode brandir os seus resultados de “bom aluno”, e o que entende ser a sua “autoridade moral”, para obter condições ainda melhores. E a coligação governamental pode capitalizar, internamente, ?a respetiva mais-valia. ?Em quem votariam, então, os eleitores?
Nota: António Costa, que baseia as suas propostas numa mudança a nível europeu, terá dificuldades em convencer os eleitores, caso o Syriza fracasse. Se os gregos não conseguem, porque haveria de conseguir o PS? A seguir, com atenção…