Mário Soares completou 90 anos, pouco dias depois de ter produzido declarações bombásticas sobre a prisão de José Sócrates. Muitos tinham atribuído as palavras proferidas à saída da prisão de Évora, após a visita ao antigo primeiro-ministro, a “excessos próprios da idade”. Pelo contrário, Mário Soares sabe muito bem o que quis fazer: deliberadamente, baralhou tudo – justiça e política – para descredibilizar a investigação e politizar o caso. ?Não o fez para defender ?Sócrates (ver página 58) mas para defender o PS, a menina dos seus olhos e, no seu entender, a obra da sua vida e que, neste processo, a intuição lhe diz que pode sair destruída. Aos 90 anos, ele vai muito à frente…
Mas o PS está longe de ser a obra da sua vida. Mário Soares, pragmático, foi, no essencial, um político extremamente coerente. Durante o salazarismo ?(e ele foi dos poucos a não se impressionar com a primavera marcelista…) tinha um fito: o derrube da ditadura. Em democracia, teve quatro objetivos, dos quais, por muitos ziguezagues políticos que tivesse registado, nunca se desviou: um, marcação de eleições democráticas e pluralistas; dois, entrega do poder aos partidos civis; três, acabar com a tutela militar, através da extinção do Conselho da Revolução e sua substituição por um Tribunal Constitucional; quatro, adesão à CEE. ?E esta foi a sua grande obra.
Mais socialista ou mais liberal – foi ele o primeiro a “entregar” o País ao FMI, em 1977 e em 1983 -,mais à direita ou mais à esquerda, Mário Soares nunca se desviou destes princípios. Para isso, contou com os aliados mais improváveis (Frank Carlucci, embaixador americano em Lisboa, durante o PREC e elemento da CIA, ou Melo Antunes, capitão de abril e redator do Documento dos Nove) ou correligionários fiéis a tempo inteiro, no partido (Salgado Zenha, foi o mais importante).
Curiosamente, entre os seus quatro objetivos principais, nunca esteve a descolonização ou “aquela” descolonização, que foi uma obra, sobretudo, dos militares do MFA e, como demonstra a historiografia recente, de Ernesto Melo Antunes.
O papel de Mário Soares, antes e depois da ditadura, fez dele a figura mais importante da segunda metade do século XX português. E mesmo o seu alegado regresso às origens esquerdistas não impediu que, neste aniversário, estivesse, mais uma vez, toda a fauna de direita e de esquerda, de Adriano Moreira a Pedro Santana Lopes.
Mas Mário Soares, que é um político de excelência em qualquer época, pode ser comparado a um jogador de futebol de outros tempos. Será que, com esquemas táticos mais apertados, Eusébio teria marcado tantos golos? Será que, com um sistema de justiça mais implacável, Soares teria escapado completamente incólume, pelo menos, do ponto de vista político, a casos como os da Emaudio e do fax de Macau/Melancia?
É por isso que Mário Soares representa um tempo e um estilo de fazer política que já não volta mais. A prestação de contas, o escrutínio permanente, a judicialização da política, a agressividade do espaço mediático e a própria entrada dos media na esfera pessoal criaram um big brother sobre os políticos a que Soares poderia, nalguns passos da sua carreira, não ter resistido. É sobretudo isto que o assusta, no caso Sócrates. Ele nunca esperou viver para ver isto.