O século XX foi, na verdade, um período de 75 anos, entre 1914, data do início da I Guerra Mundial, e 1989, ano em que se deu a queda do Muro de Berlim.
O período entre guerras não pode ser considerado um tempo de verdadeira paz, e muito menos de prosperidade: o conflito de 1914 só viria a ser definitivamente encerrado com a rendição incondicional do Japão em 2 de setembro de 1945.
Esses 21 anos entre os conflitos mundiais caracterizaram-se por revoluções, regressão social e civilizacional, falência das democracias e do liberalismo económico e uma guerra civil em Espanha de influência global. Mesmo o avanço tecnológico, impressionante, ficou-se a dever às necessidades de inovação bélica, para a guerra total.
E a Grande Depressão de 1929 foi o principal catalisador da ascensão dos totalitarismos, com especial destaque para o nacional socialismo alemão, e da II Guerra Mundial, com os seus 50 milhões de mortos. Nos anos da Grande Depressão, era difícil aceitar que o investimento e as obras públicas contribuiriam para diminuir o desemprego, porque se acreditava que o dinheiro gasto nelas seria desviado do setor privado que, de outro modo, geraria o mesmo volume de empregos. Por isso, o primeiro instinto dos governos, além de promover políticas deflacionistas, para proteger o padrãoouro, foi o de se agarrarem à ortodoxia financeira, à disciplina orçamental e à redução de despesas.
Economistas como John Maynard Keynes denunciaram essas políticas, concluíram que elas só agravavam a recessão e através desta conclusão “contracorrente”, Keynes tornou-se o mais influente pensador económico nas quatro décadas seguintes.
Os mesmos defensores ortodoxos do mercado livre foram incapazes de resolver as recessões de finais dos anos 80, o que demonstra a incrível falta de memória histórica dos economistas.
A mesma cartilha serve de receita, sobretudo na União Europeia, para a crise que enfrentamos desde 2008. De repente, é como se estivéssemos a viver o ano de 1931, com um Hitler qualquer à espera da sua oportunidade, e a caminharmos alegremente para a catástrofe da guerra na Europa. Já estivemos mais longe.
É POR ISSO QUE dois factos desta semana, ambos nas páginas da VISÃO, são, à nossa escala, tão importantes.
O primeiro é a nomeação de Carlos Moedas para a Comissão Europeia. Parece uma escolha lógica: Moedas é um homem competente, conhecedor dos dossiês europeus, com prestígio e notoriedade nos “meios”, graças ao seu papel fundamental na ligação entre o Governo português e a troika, missão que levou a termo com sucesso.
Mas todo o pensamento que representa parece, agora, entrar no período de “fora de moda”: o presidente Junker defende, abertamente, o investimento público, a flexibilidade na aplicação do Tratado Orçamental e políticas mais audazes de crescimento.
Moedas, fora de prazo, é uma figura a preto e branco, numa Europa que pretende recuperar a cor.
O outro facto é a desassombrada entrevista de António Costa, pela forma temerária como defende o fim da austeridade e como promete lutar por influenciar a agenda europeia, procurando alianças que descortina à nossa espera. O seu projeto é um tiro no escuro, mas a sua proposta política é dirigida a um eleitorado que já não tem nada a perder e que pode sentir a necessidade de experimentar algo completamente diferente.
Será que o século XXI ainda não começou?