Em 90 minutos de thriller, o jogo de Portugal contra a Alemanha resume todos os defeitos, deficiências e problemas do País, numa reedição da Batalha do Lys, na I Guerra Mundial, quando o corpo expedicionário português, mal equipado e mal treinado, foi dizimado pela arremetida alemã. A mesma equipa capaz de se transcender, desde que conduzida por uma liderança forte, de Cristiano Ronaldo a Luís Figo, de Nuno Álvares Pereira a D. João II, passa da euforia à depressão, por desânimo, medo, desorientação, queixume, lamúria, vitimização e inveja. Ao ombrear com uma equipa poderosa e organizada, seja a Alemanha de Muller, seja a de Merkel, verifica que a falta de organização, de preparação e de planeamento (da Federação Portuguesa de Futebol? Ou dos governos PS e PSD? Dos critérios para a convocação dos jogadores? Ou dos empresários portugueses?) não resiste ao improviso, seja o de André Almeida adaptado a lateral, seja o de Paulo Portas adaptado a vice-primeiro-ministro. A reclamação permanente (de Bruno Alves?, de Arménio Carlos?, de João Pereira?, de Marco António Costa?) resulta, sempre, na desculpabilização e na atribuição de responsabilidades a todos menos a nós próprios: ao árbitro Milorad Mazic, ao Tribunal Constitucional e à troika. Emerge, então, a falta de educação, a má criação e a agressividade de Pepe, da equipa técnica e dos debates na Assembleia da República. O vedetismo, o autoconvencimento, seja o dos craques, seja a dos gestores públicos ou dos banqueiros imerecidamente bem pagos, a arrogância e a sobrevalorização de quem não se enxerga (dos jornais desportivos?, dos adeptos?, de José Sócrates?, de Passos Coelho?) fazem o resto. Somos cúmplices da derrota. Nós vimos as reportagens e nada dissemos: enquanto a seleção se ocupava a dar autógrafos às meninas que invadiam os treinos, os alemães trabalhavam no duro. O próprio CR7, por falta de resguardo da FPF, se deslumbrava, querendo ver as imagens da fã de Campinas, recolhidas pela RTP. Era a risota. Já Thomas Muller, autor de três golos contra Portugal, transpirava, em silêncio, no recato puxado do treino, sob o calor abrasador da Baía. Foi logo na peça televisiva seguinte. Enquanto Paulo Bento se insurgia contra fugas de informação, Joachim Lowe não escondia nada: “Temos de controlar Cristiano. Ele aparece atrás da defesa quando ninguém espera. Ele e Moutinho andam sempre na terra de ninguém. Temos de estar atentos aos dois. Dos últimos 20 golos de Portugal, 18 terão sido marcados de contra-ataque.” De que maneira terá o selecionador português aproveitado esta… “fuga de informação”?
Angela Merkel viu o jogo. Esperemos que não tenha tirado conclusões políticas. Que não venha agora dizer que os portugueses não planeiam, não trabalham e só querem regalias. Que Merkel não transporte para a política o facto de preferirmos passear (pelos EUA), a suarmos as estopinhas (no clima de Salvador). Que não cometa a injustiça de nos acusar de querer dar autógrafos em vez de treinar (ou de produzir). Que não seja entendida no futebol ao ponto de concluir que entramos em campo sem consciência do valor do adversário (ou da dívida soberana). Que não nos acuse de culpar a troika – aliás, o árbitro – pelos nossos problemas. Que não atente ao facto de exigirmos regalias como a de vermos perdoados penáltis que cometemos. Merkel foi por nós insultada, no facebook, pelas fotos que retratam a sua boa disposição na tribuna do Arena Fonte Nova. Mas ela estava só a festejar os golos da sua equipa. Dependia de nós podermos fazer o mesmo. No Mundial e na União Europeia. De que estamos à espera?