Se calhar ainda não repararam, mas já de há uns anos para cá que é proibido que o sistema mediático português passe mais de 2 semanas sem uma crónica de um homem branco de meia idade sobre “já não se poder dizer nada”. É um tema absolutamente fraturante e que lhes tira mais noites de sono, naturalmente, do que as alterações climáticas, a transfobia ou o preço do azeite.
As palavras que eles, em particular, supostamente já não podem dizer (por ordens e proibições que só existem na sua cabeça). Ou melhor, o sofrimento atroz que lhes causa que um bando de idiotas (nos quais me incluo, peço imensa desculpa, não queria incomodar, mas tenho de o assumir), ache que, por exemplo, usar “paneleiro” como insulto ou adjetivo (???) é assim, digamos que, bastante degradante para qualquer homossexual, e por isso devemos evitá-lo.
Li a crónica do Rodrigo Guedes de Carvalho no Expresso sobre o tema. Diz que as palavras não têm alma, nós é que a lhes emprestamos, e que, por exemplo a N word (que ele claro que opta por escrever por extenso, porque a ele ninguém dá ordens de léxico) é o exemplo da ineficácia de ser “absolutamente proibida a brancos”, porque apesar disso não acabou com o racismo nos EUA. Antes de mais, parabéns pelo raciocínio. Mas já agora, convém dizer que, além de o valor das palavras não estar só contido no binómio “nenhum poder” ou “com poder suficiente para levar ao homicídio de imediato de um pessoa com base na sua cor”, há de facto uma alma coletiva histórica do mais profundo racismo naquela palavra. Se me perguntassem, eu diria que há um sofrimento menor em os homens brancos não dizerem a palavra preferida do KKK, do que o que as pessoas negras sentem ao ouvi-la como insulto e desumanização, mas pelos vistos estou enganado.
Ui, e os pronomes? As pessoas trans são discriminadas e violentadas todos os dias, seja na rua, no emprego (na falta de acesso a ele), ou até pelo Estado, mas o que magoa mesmo o homem branco de meia idade é que uma pessoa cujo género atribuído à nascença tenha sido o masculino, agora prefira ser tratada pelos pronomes ela/dela. É uma brutalidade, de facto. Genocídio na Palestina? Meio chato. Bilionários deterem a riqueza quase toda do mundo e vetarem o resto ao sofrimento? Ligeiramente incómodo. Haver gente que diz que, podendo, se deve evitar dizer coisas como a N word, atrasado mental ou paneleiro? Meu deus, isto é o holocausto do reacionário das palavras.
Na crónica, o RGC dá como bom exemplo do pouco valor que as palavras podem ter o cumprimento entre bons amigos com um “o que é feito de ti, meu pénis?”. Engraçado como ele consegue escrever por extenso a palavra mais racista do mundo, mas tem medo de escrever “caralho”. Ele faz esta espetacular equivalência, como se nós não soubéssemos que a mesma palavra pode ter valores diferentes consoante o contexto. Temos que lhe ser gratos por isso.
Mas, já agora acrescento, que sabemos que até é possível que palavras outrora usadas para oprimir, sejam esvaziadas da sua violência pelo oprimido, como aconteceu com “queer”, por exemplo. Contudo, é às pessoas para quem as palavras podem ter efeitos brutais que compete tomar para si esse poder, e não a nós dizer “aguenta e não chora, porque se não quem chora sou eu por não poder usar esta palavrinha”.
Claro que não dizer “paneleiro” não resolve a homofobia, e todos os paralelismos que se podem fazer entre não dizer palavras e isso não resolver discriminações e violências. Mas nem que seja só por isto, custa assim tanto ser mais gentil? É assim tão difícil não usar a orientação sexual alheia como insulto? Não dizer “deves estar com o período” para usar a biologia feminina para tentar diminuir alguém? E se uma pessoa que passou por um sofrimento horrível, por ter nascido num corpo no qual não se identifica, pede para ser tratada por determinados pronomes, eu pergunto honestamente: o que é que nos custa? Pelos vistos, custa-nos levar com crónicas todas as semanas de “já não se pode dizer nada”, vindas sempre de gente que pode dizer tudo.
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