Era dado como desaparecido. À boa maneira russa. Evaporado. Esfumado. Afinal, Serguei Lavrov — eterno ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia (que negócios, e com quem, exatamente?) — está vivo, bem-disposto, e a pedir encontro com o homólogo norte-americano. Respira-se de novo no gabinete de Putin.
Se Lavrov tivesse desandado sem deixar rasto, ou caído fulminado depois de uma chávena de chá, a Rússia entrava em estado febril. Não porque Putin precise dele para grande coisa — decide tudo sozinho — mas porque Lavrov é aquela face simpática, meio ausente, bochechas caídas, que amacia a dureza. Não faz falta à Rússia. Faz falta à NATO e aos EUA, que, sem ele, viveriam em permanente azia.
E faz falta, sobretudo, aos seus colegas ministros. Uma coisa é ser substituído, encostado, ou simplesmente enviado para a sombra. Outra é desaparecer na Rússia. Aí, a escala muda: passa-se do tudo ao nada. De estar aqui a estar algures — ou a não estar. Vivo ou em parte incerta.
Tudo começou — e acabou — numa reunião em que Putin, rodeado de ministros e militares, anunciou orientações ao Ministério dos Negócios Estrangeiros… sem o ministro. Todos presentes, menos ele. Estranho, pensou-se. Da estranheza ao sobressalto vai um lapso. Onde está? Que lhe aconteceu? Caiu de uma varanda do Kremlin? Uma ligeira indisposição — mortal? Putin não devia brincar com a leitura coletiva da realidade. Podia esperar umas horas, reunir com Lavrov presente— que, quem sabe, estaria no alfaiate a ajustar o casaco. Que aflição desnecessária. Que tormento. Que inquietação.
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