A primeira vez que vi uma atuação de Conan Osiris foi a 14 de abril do ano passado, numa festa do Festival IndieLisboa, no Hub Criativo do Beato (um dos seus primeiros concertos). A segunda, foi nesta sexta-feira, 8 de março, em Berlim (primeira cidade da Europa a transformar esse Dia Internacional da Mulher em feriado). Pelo meio, uma surpreendente participação no Festival da Canção RTP e uma, já não tão surpreendente, vitória retumbante que o deverá levar à final da Eurovisão em Tel Aviv.
No Beato, Conan Osiris parecia genuinamente agradecido e espantado por ver umas dezenas de pessoas na fila de frente que já sabiam cantar algumas das suas canções; enquanto interpretava Amália (“Sabes que a saudade anda aos beijos com a morte…”), de costas para o público, sozinho em palco, desatou num pranto como uma criança desamparada.
Aí, percebi que Conan Osiris era um caso sério (mas nem por isso menos divertido).
Em Berlim, Tiago Miranda/Conan Osiris está muito mais solto, consciente da sua força em palco, do poder das pausas e dos gestos, da comunicação com o público. Ali, ninguém diria que há apenas um ano aquele artista não tinha a mínima experiência de transportar a sua música para o contacto direto com os espectadores… Estamos no Trauma Bar und Kino, clube recente, no norte de Berlim, com uma programação multidisciplinar (sobretudo de música e cinema) apostada em descobrir e apresentar novas tendências vindas de toda a Europa – antes de Conan Osiris subiu ao palco a música “electro-oriental”, vinda de Paris, de Johan Papa Constantino.
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Concerto de Conan Osiris no Trauma Bar und Kino, em Berlim, na sexta-feira, 8 de março
Na sala, cheia de recantos, havia uma evidente excitação no ar. Quando, entre fumos, Conan chegou, atirou-se imediatamente a um dos seus hits: “Chibou-me uma pomba que andavas a chorar…”. Não faltou muito até se ouvir um coro de vozes destemidas – “Eu é que sou borrego, borrego, borrego…” – confirmando o que já tinha sido fácil intuir: havia muitos portugueses no Trauma. “Berlim, what’s up?? Como é que é bebés?”, dispara Conan.
Berlim é o sítio certo para ouvir o autor das linhas “…e eu feito otário à espera de um anjo pa me levar ao kebab” – afinal estamos numa cidade com kebabs espalhados por todos os bairros e onde, a cada passo, parece que nos podemos cruzar com Damiel e Cassiel, os anjos d’As Asas do Desejo, de Wim Wenders.
Quando, no final – 15 canções depois, com muita participação do público (incluindo danças no palco ao som de Celulitite) –, à laia de encore, chegou a vez de Telemóveis (a canção escolhida para representar Portugal na Eurovisão), o músico encenou (ou talvez não…) algum enfado: “É que já estou mesmo farto desta música…”. E, aí, até fez pensar em Salvador Sobral, sempre pronto a desvalorizar a sua participação na Eurovisão.
Para onde vai a carreira de Conan Osiris? Neste momento é bem difícil dizê-lo. Nem o próprio terá uma resposta fácil e certeira.
Verdade é que estamos perante alguém que começou a fazer música em casa, como quis, misturando todas as referências (e são muitas) que lhe apeteceu misturar, cantando o que lhe apeteceu cantar, com meios relativamente rudimentares (beneficiário, como mil e um outros, da facilidade de transformar um telemóvel em gravador e um computador em estúdio). Livre. Já não é propriamente um miúdo (Tiago Miranda tem 30 anos), não começou agora e, ao contrário do que alguns dizem, não vem de um meio cheio de amizades “na imprensa” ou na elite artística e intelectual. Alguém autodidacta que, recorde-se, há um ano não tinha, sequer, experiência de palco mas já tinha lançado três discos (em formato digital).
Ver Conan Osiris existir, insistir e triunfar é um excelente sinal para Portugal. Afinal, foi também para isto que se fez o 25 de Abril. E é também para isto que as cidades derrubam muros.
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