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Ana Baião
Fui há dias à apresentação de um belíssimo disco de um amigo. Chama-se Bagatelas, o disco, e Rogério Cardoso Pires, o amigo. O Rogério toca guitarra acústica muitíssimo bem e em boa hora o convenceram de que devia gravar um disco com temas originais – com tanto de beleza e alegria em estado puro como de melancolia (o que, diga-se, combina bem com o seu autor). Mas não é (só) destas Bagatelas que aqui quero falar. O lançamento decorreu no Salão Nobre do Conservatório Nacional de Lisboa (onde o Rogério trabalha como músico). A dimensão histórica do lugar é diretamente proporcional ao desconforto das suas cadeiras. Os assentos foram esculpidos ao longo de anos por centenas, milhares, de corpos dos mais variados feitios (fantasmas de noites passadas que ali deixaram as suas marcas). Todos diferentes, todos iguais, rangem, sofrem, parecem soçobrar (algumas cadeiras já morreram mesmo, paz à sua alma). Do meu lado esquerdo, colunas metálicas da família dos andaimes sustentam um primeiro balcão – fazendo-nos pensar, inevitavelmente tortos em cadeiras tortas, que se ali não estivessem podíamos assistir ao trágico espectáculo de ver uma parte do balcão a desmoronar-se. A sala, com todas estas maleitas de velhice, não deixa de ser linda, digna, vetusta, cheia de personalidade. Ora, quase desde que me lembro de estar atento a estas questões que ouço falar na necessidade urgente da recuperação deste Salão Nobre. Quase tantas vezes como ouvi promessas de resolução iminente. Estamos em 2016, e ele aqui está à minha frente. Decrépito. Só um país muito pobre, penso, pode ter tanta dificuldade em canalizar uns milhares de euros para a recuperação do Salão Nobre de uma das suas principais instituições de ensino artístico. Não há uma empresa que se queria associar a esse nobre trabalho? Não há um mecanismo para canalizar, rápida e eficazmente, verbas públicas suficientes para essa recuperação? A entrada para a apresentação do disco Bagatelas fazia-se depois de, no hall de entrada, darmos “é o que quiser dar…” em troca de um improvisado e triste pedaço de papel rasgado que nos permitia aceder ao Salão Nobre. Triste.
Ocorrem-me muitos países (sem ser preciso ir além dos Pirenéus…) onde creio que isto dificilmente aconteceria numa escola com importância equivalente à do Conservatório.
Pouco dias depois, ouço Clara Ferreira Alves, entrevistada no Festival Literário da Gardunha por Tiago Salazar, mostrar-se surpreendida, talvez mesmo chocada, pela campanha que apelou a todos os portugueses para contribuírem para que um quadro de Domingos Sequeira ficasse em Portugal, num grande museu público. “Não houve um único milionário ou empresário português que se chegasse à frente? Foi preciso serem os tesos dos portugueses a pagarem?”, perguntou.
Um país pobre, sim. Mas um país pobre onde muitos investimentos, subsídios e perdas se contam em milhões na cadência diária das notícias. Um país pobre, sem ir mais longe nos exemplos, onde há quem pense que é legítimo defender que o Estado continue a subsidiar o ensino privado quando as condições para esse subsídio (ausência temporária de uma escola pública que garanta o acesso de todos à educação definido na Constituição) deixaram de existir. Aliás, parece que há pessoas que não só defendem esse luxuoso direito como não têm vergonha de o gritar bem alto nas ruas.