Completaram-se ontem quatro meses sobre a chegada da tempestade Kristin e três meses sobre o início da operação Fúria Épica lançada por Trump contra o Irão.
As alterações climáticas farão com que fenómenos extremos se tornem cada vez mais frequentes, apesar do negacionismo da extrema-direita, que prefere as suas alucinadas perceções às evidências da ciência, e, por isso, a prevenção e preparação são cada vez mais essenciais. Passamos bruscamente das chuvas intensas para a “Cúpula de Calor” que assola a Europa ocidental neste final de maio.
Faz bem Luís Neves em falar todos os dias em prevenção de riscos de incêndios, sem se saber se vai ainda a tempo depois de dois anos perdidos entre a demagogia securitária inconsciente de Montenegro, a inexistência operacional das duas antecessoras e o abandono da gestão florestal pelo mercador de subsídios agrícolas José Manuel Fernandes. Adiar até 30 de junho a limpeza dos terrenos à volta das casas e das aldeias é, neste contexto, uma inevitabilidade arriscada face à falta de melhor alternativa.
Já no Golfo Pérsico o fracasso estratégico é gritante com consequências nefastas para a economia mundial, que se sentem a cada segunda-feira na bomba de gasolina, todos os dias na travagem a fundo da economia e no regresso da inflação alta e do aumento dos juros sobre os endividados jovens que foram induzidos pelo Governo a comprar as casas mais caras de sempre.
Apesar do desprezo pelo Direito Internacional, e vários atos de pirataria praticados pelos norte-americanos, a teocracia iraniana radicalizou-se, o regime não mudou, as execuções de opositores continuaram e o estreito de Ormuz retomou a importância estratégica que era já conhecida por Afonso de Albuquerque.
Entre nós, se já sabíamos que a prevenção fora abandonada e que nas primeiras horas das tempestades a confusão reinou, torna-se agora evidente que as promessas do “artista de filme de ação” Leitão Amaro e do distribuidor de apoios Castro Almeida eram meras peças de propaganda, esperando que a memória dos prejuízos de fevereiro se apagasse, sendo rapidamente substituída pela excitação mediática seguinte.
O relatório da visita presidencial de António José Seguro à região Centro é devastador para o Governo, sem ter nada de muito surpreendente para os portugueses. Basicamente, confirma que a prevenção não existiu, que a resposta inicial foi descoordenada e que as medidas de apoio à recuperação da região, sobretudo as destinadas a recuperar habitações afetadas, estão em grande medida por executar. Realça-se também a diferença radical entre a desvalorização inicial do evento pelo Governo e o empenho total das autarquias e das comunidades locais na resposta imediata ao infortúnio.
Depois do flop do filminho promocional e de os anúncios de três dias prometidos para pagar prejuízos com base numa fotografia dos danos se terem revelado uma fábula de mau gosto, a resposta habitual do Governo Montenegro foi a fuga à responsabilidade, tanto em frente, dizendo que tudo se resolverá até 2034 com o PTRR, como de forma descentralizada, culpando as autarquias locais pelos atrasos na tramitação dos pedidos de apoio.
Aparentemente, a única medida que funcionou foram os empréstimos para apoio à tesouraria das empresas, em que já foram decididas 9200 das 10 800 candidaturas apresentadas para apoios com um financiamento global de cerca de 1550 milhões de euros. Mesmo nestes casos estamos a falar de mais endividamento e não de subvenções para apoio à reconstrução de empresas que ficaram muito debilitadas na sua capacidade produtiva.
Já os apoios à reconstrução de casas são uma pequena calamidade com trocas de mimos entre o Governo, os municípios e as CCDR sobre os atrasos na apreciação das candidaturas. Os três dias para pagamento de apoios até 5 mil euros e os 15 dias para os apoios até 10 mil euros converteram-se num inferno burocrático que ainda não foi deslindado, nem sequer pelo vibrante ministro da Reforma do Estado.
Dos cerca de 36 mil pedidos de apoio estão só 9 mil pagos e só foram apreciadas menos de metade das candidaturas com uma taxa de indeferimento de cerca de 20 por cento. Apenas foram pagos 36 milhões de euros dos 210 milhões solicitados e é manifesto que mesmo o limite de 30 de junho imposto pelo Governo para a apreciação de todos os processos parece já irrealista.
Mesmo as seguradoras apenas terão pago só cerca de 530 milhões de euros, menos de metade dos cerca de 1300 milhões de euros de prejuízos reportados relativamente a mais de 200 mil sinistros, ainda que aleguem que cerca de 2/3 dos processos estão já encerrados.
A área da agricultura é outro exemplo da gritante disparidade entre as grandiloquentes declarações de José Manuel Fernandes sobre os 500 milhões de euros de prejuízos e os míseros 3,3 milhões de euros pagos a pouco mais de 400 agricultores.
Igualmente, na área das infraestruturas, estão ainda 26 estradas cortadas, 7500 clientes sem telefone fixo e não há prazo previsto para a reabertura total da linha do Oeste, sem que a CP ofereça alternativa rodoviária.
Por mais que o Governo tente impressionar os papalvos com a magnitude dos grandes números, desde os 22,6 mil milhões de euros do PTRR, aos 5,3 mil milhões de euros de prejuízos reportados ao Fundo de Emergência da União Europeia ou os 3,5 mil milhões de apoios anunciados (a maioria dos quais são empréstimos ou moratórias que serão cobrados mais adiante), na região afetada, a credibilidade de Montenegro já foi arrastada pela tempestade da burocracia e das promessas por cumprir.
O relatório presidencial indica um caminho que deve ter consequências operacionais, legislativas e políticas. As tentativas de fazer esquecer a imprevidência passada com planos de amanhãs que cantam já sucumbiram ao teste da paciência de quem não consegue cobrir o teto nem recuperar as produções perdidas com power points.
A conjugação inevitável das tempestades de inverno com os custos da fúria trumpista, ameaça já delapidar o exaurido pecúlio financeiro e as escassas reservas de capital político de um primeiro-ministro minoritário, que sem encontrar soluções anda sempre a sonhar com as próximas eleições.
Pela radical disparidade entre as promessas de apoios imediatos e o desesperante balanço destes quatro meses, o prémio Laranja Amarga vai para o ministro das ilusões económicas Castro Almeida.
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