A interrupção das negociações em curso, em Genebra, sobre o programa nuclear iraniano pela ação militar unilateral dos Estados Unidos e de Israel, que visou o assassinato do líder supremo do Irão e de um conjunto de dirigentes do parceiro de conversações, veio alterar radicalmente a agenda política nacional.
Subitamente, deixou de ser notícia a incompetente e tardia resposta do Governo às tempestades de janeiro e de fevereiro, os limitados apoios assentes em endividamento das empresas ou os parcos meios para recuperação de casas destruídas.
Passou mais de um mês sobre a tempestade, mas ainda ninguém conhece qual a forma de concretização do prometido alargamento dos apoios às zonas não abrangidas pela declaração do Estado de Calamidade. Foi reaberta a A1, mas nunca mais se falou das centenas de quilómetros de ferrovia sem comboios ou das múltiplas estradas interrompidas ou muito danificadas.
Trump e Netanyahu foram igualmente um alívio para a ministra da saúde, que assim não teve de explicar porque foram em janeiro superados os 1,6 milhões de cidadãos sem médico de família , como continua sem encontrar uma solução para os médicos tarefeiros, seis meses de mais uma promessa de ação, e aproveitou ainda para anunciar o encerramento da urgência de ginecologia/obstetrícia do hospital do Barreiro, sem nunca ter falado com os autarcas da região afetada que pediam uma reunião há mais de seis meses.
A Península de Setúbal, onde o Governo pretende concentrar as urgências no hospital mais próximo de Lisboa, tem cerca de 850 mil habitantes ignorados pela visão de quem olha com sobranceria para a chamada “outra banda”, a partir da margem norte do Tejo e com um olhar de quem chegou agora do Porto.
Os quatro concelhos do Arco Ribeirinho, área de influência do hospital do Barreiro, são a zona para onde está projetado o novo aeroporto, o local de implantação da terceira travessia do Tejo e de passagem da ferrovia de alta velocidade entre Lisboa e Madrid, mas a freguesia de Canha, no concelho do Montijo, fica a 75 Km do hospital Garcia de Orta.
Para completar a angústia causada pela desmiolada arrogância de Ana Paula Martins nas populações da região, recorde-se que o acompanhamento das grávidas é gravemente condicionado pelo facto de 35% dos utentes do Arco Ribeirinho não terem médico de família, o que compara com os 2,5% na região Norte.
Mas, entretanto, na sua sabujice para com o autocrata de Washington, o ministro Paulo Rangel, que começou por nos querer enganar e tomar por tontos com uma leitura distorcida do acordo com os Estados Unidos sobre a base das Lages, vem agora falar de condicionantes estabelecidas à sua utilização já depois do início da operação militar que não explica se estão a ser cumpridas, e não lhe ouvimos uma palavra de solidariedade para com a defesa da soberania insultada dos nossos grandes parceiros, Reino Unido e Espanha.
Mas no meio de toda esta turbulência, que permite à maioria dos ministros passar à prudente clandestinidade, há quem persista em cruzadas desnecessárias movidas por uma inelutável obsessão ideológica, como a ministra Rosário Palma Ramalho e a sua porfiada defesa da revisão das leis laborais.
Apresentada em julho, sendo utilizados de início temas periféricos, como a amamentação para lá dos dois anos, como cortinas de fumo, a proposta conseguiu a proeza de levar à maior greve geral do século XXI, à reserva assumida relativamente aos seus aspetos essenciais por parte do Presidente da República eleito e a uma espantosa pirueta política do candidato presidencial derrotado.
Não se compreende a urgência da proposta num ano em que cresceram em mais de 150 mil os trabalhadores empregados e em que os contratos precários baixaram para 15%, o nível mais baixo desde que há registos, devido à escassez de mão-de-obra e à dificuldade das empresas em fixar trabalhadores.
Mas a intrépida Palma Ramalho insiste, ainda que não se compreenda qual a sua abertura negocial relativamente aos pontos nucleares da proposta, ou a posição relativamente à detalhada contraproposta apresentada pela UGT.
O que se sabe é que as ameaças de avançar com a proposta mesmo sem acordo têm sido recorrentes e que a vontade de diálogo é muito limitada, pois em mais de 7 meses só se realizaram três reuniões da Concertação Social envolvendo todos os parceiros, e que Palma Ramalho chegou a tentar fazer uma reunião negocial só com representantes das associações patronais.
No final da reunião de ontem da Concertação Social, parecia que os intervenientes tinham estado em reuniões diferentes. Enquanto a UGT disse ser ainda necessário “partir muita pedra”, não sendo possível fixar um calendário para a aproximação de posições, o presidente da CIP, única confederação patronal claramente entusiasta do projeto do Governo, fixou um ultimato de duas semanas para o final do processo após o qual não valeria a pena continuar o diálogo social.
Já a ministra foi misteriosa ao dizer que se estava,” mais perto do fim do debate do que do principio”, mas que a discussão não se poderia eternizar. Já sobre o conteúdo concreto da eventual aproximação de posições nas questões mais fraturantes permaneceu a névoa sobre a abertura do Governo.
Ficamos sem saber se estamos no “fim do princípio” do processo político da Reforma Laboral, ou no que parece ser o “princípio do fim” da linha para a intransigência de Rosário Palma Ramalho que, pela sua obstinação contra a realidade do mercado de trabalho e a paz social, reincide no Prémio Laranja Amarga.
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