Ao fim de uma semana sobre a tempestade Kristin, o Governo que ignorou a Estratégia Nacional de Proteção Civil Preventiva, tal como fizera antes dos incêndios do ano passado, e que se atrasou na resposta à tragédia que só arrastado qualificou como calamidade, continua mais interessado em salvar a pele através da gestão política do que em ter uma estratégia sustentada de resposta que dê confiança aos portugueses.
A capacidade científica de antecipar fenómenos extremos é hoje bastante superior à existente nos tempos da “outra senhora”, antes dos 50 anos de democracia que André Ventura abomina e que cabe aos portugueses defender com a sua opção no próximo domingo.
Não é verdade que a depressão Kristin, na sequência de uma cadeia de vários fenómenos provenientes do Atlântico num período curto devido à retração do anticiclone dos Açores para uma posição mais a sul, tenha sido um fenómeno único no último século.
O ciclone de fevereiro de 1941 provocou mais de uma centena de mortes e destruição maciça, quer devido a ventos de 165 Km/h quer por causa das inundações que provocaram afogamentos de pessoas surpreendidas, e não avisadas pela inexistente estrutura de prevenção de riscos, sobretudo na zona de Lisboa, em Alhandra, Alhos Vedros ou Sesimbra.
As cheias de 1967 na região de Lisboa, novamente com efeitos alavancados pela falta de informação, pela falta de ordenamento do território e pela ausência de estrutura de proteção civil, terão provocada mais de 700 mortes que a ditadura tentou esconder e desvalorizar.
Mas o fenómeno Kristin é comparável ao Leslie de outubro de 2018, o único furacão que atingiu Portugal continental como depressão tropical nas últimas décadas, afetando igualmente a região centro litoral, com grande impacto em Soure, Marinha Grande, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz.
Nessa altura, o vento atingiu a intensidade de 176 km/h, semelhante à maior rajada de 178 km/h registada a semana passada em Monte Real, mas a diferença é que a situação de alerta em 2018 foi declarada antes da chegada da tempestade, o local de entrada em terra foi monitorizado com informação permanente às populações, os geradores da proteção civil já estavam a caminho e os autarcas sem eletricidade nem comunicações privadas receberam rádios SIRESP que funcionaram.
Desta vez a calamidade só foi oficial mais de 24 horas depois da tormenta, o MAI não existiu na liderança da resposta e a proteção civil não fez comunicação permanente para as populações, não mobilizou a intervenção logística das Forças Armadas nem acionou antecipadamente o satélite Copérnico nem qualquer outro mecanismo de apoio europeu.
Nunca se viu a central de comando da ANEPC em Carnaxide, mas tivemos imagens do estúdio de propaganda de Leitão Amaro que, entretanto, provavelmente por prudente vergonha, foi retirado para o bunker da invisibilidade que partilha agora com Lúcia Amaral e Ana Paula Martins.
Depois do passo em falso do ministro da propaganda, o terreno foi deixado, para além dos secretários de Estado sapadores, para os ministros políticos como Castro Almeida e Pinto Luz e para a referência de bom senso humanista que é Graça Carvalho.
As medidas de apoio à recuperação dos danos, anunciadas na primeira declaração formal de Luís Montenegro, mais de 96 horas depois de a tempestade passar, são essencialmente, em 3/5 do valor anunciado, linhas de crédito para endividamento das empresas, algumas moratórias recomendadas por bom senso e propostas por António José Seguro e uma compreensível aplicação do regime simplificado de lay-off, testado durante a pandemia.
Já os 10 mil euros para recuperação de habitações permanentes parecem desconhecer realidades que podem variar muito, desde algumas telhas partidas até à completa destruição de habitações a exigir reconstrução total. Esperemos que cheguem rapidamente aos necessitados e que Paulo Fernandes seja agora tão eficaz como Ana Abrunhosa foi na recuperação das zonas afetadas pelos incêndios de 2017.
Castro Almeida surge como o homem da mala dos subsídios, repetindo o modelo de caixeiro-viajante das boas novas que ensaiou depois dos incêndios de 2024 e de 2025. Os seus resultados no Governo, ao desperdiçar os fundos do PRR para a floresta, a habitação, os cuidados continuados ou os lares, que foram substituídos por um baú de crédito a distribuir pelo Banco de Fomento, levantam as maiores reservas, mas o teste decisivo será o da capacidade de efetiva recuperação das empresas, das infraestruturas e das habitações das zonas atingidas.
Pinto Luz, que foi ao local dizer que o Estado falhou, não foi nada claro a esclarecer por que razão, tal como no apagão, as operadoras de telecomunicações (quatro grupos de grande dimensão) falharam tão clamorosamente e ao fim de uma semana o serviço continua interrompido em tantas localidades da região Centro.
Graça Carvalho mostrou mais uma vez ser uma exceção num Governo de soberba e incompetência. Mostrou empatia ao ir a Alcácer do Sal quando a cidade tinha sido ignorada na declaração inicial do Estado de Calamidade, foi ponderada na declaração do que era necessário fazer e nos riscos dos próximos dias e tem sido a responsável política pela gestão prudente das descargas das barragens, que têm limitado os danos nas bacias do Mondego, do Tejo e do Guadiana. Só não conseguiu explicar, apesar de ter razão na defesa de que a alta tensão tem de circular em cabos enterrados, como é possível que as monopolistas privadas REN e E-Redes deixem, ao fim de uma semana, mais de 120 mil clientes sem energia.
A responsabilidade final é do primeiro-ministro, até pela culpa reincidente nas escolhas para o MAI, mas pelas unhas roídas no filminho promocional, fingindo nervosismo ao gerir o que não soube prevenir nem proteger, o prémio Laranja Amarga da depressão Kristin vai para o ministro da propaganda Leitão Amaro.
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