O Governo tem funcionado como uma permanente comissão eleitoral do PSD distribuindo estímulos ao rendimento disponível, das estratégicas bonificações de pensões às cirúrgicas reduções fiscais, até aos acordos com vários setores da função pública que permitiram uma anestesia da contestação social. O crescimento sempre inferior ao registado em 2022 ou 2023, e muito longe do prometido em campanha eleitoral, tem resultado exclusivamente da animação da procura interna.
Quando estão em causa questões estruturais como o acesso à saude, o direito à habitação ou a promoção do investimento público as coisas já correm muito pior.
E quando estamos perante situações inesperadas como incêndios rurais, apagões ou tempestades, a gestão centralizada da decisão política aliada ao desprezo pela prevenção de riscos gera situações calamitosas que se têm mostrado tão recorrentes que não podem ser só acaso ou azar.
A sucessão de situações climatéricas adversas verificada esta semana, a culminar na depressão Kristin, mostraram, tal como a gestão dos incêndios rurais do verão passado, uma conjugação perigosa para os portugueses com a ausência de uma cultura de prevenção de riscos, uma gestão puramente política da crise centrada na gestão da imagem do primeiro-ministro e uma resposta baseada na demagogia habitual de Leitão Amaro e na vocação de Castro Almeida para pregador de subsídios.
Apesar de se conhecer com segurança com pelo menos 48 horas de antecedência as características da tempestade que se aproximava e a zona do País em que teria maior impacto, as medidas preventivas e de pré-posicionamento de meios foram quase inexistentes.
Na tarde de quarta-feir,a com mais de um milhão de portugueses sem eletricidade nem comunicações, as principais ligações rodoviárias e ferroviárias interrompidas, várias mortes registadas e os autarcas a reportarem prejuízos avultados, Luís Montenegro dizia ser necessária uma avaliação aprofundada da situação e recusava a declaração da situação de calamidade nas zonas mais afetadas.
Entretanto, a ministra da Administração Interna, como sempre sucede nestes momentos críticos em que se exigiria liderança do sistema de proteção civil e capacidade operacional, passou, mais uma vez, à clandestinidade.
Ao fim de três dias, permanece a incapacidade de restauração do fornecimento de energia ou de resposta das concessionárias de telecomunicações. Os autarcas, como denunciou Santana Lopes, sentem-se abandonados, sendo reduzidos ao papel de figurantes de ações de propaganda.
A situação de calamidade foi tardiamente declarada, por um período mínimo e mesmo assim excluindo situações como a de Alcácer do Sal, e sem comando político da resposta à situação de crise. Verificou-se mais um apagão na capacidade de resposta do Governo em situações de crise e um desaparecimento do papel central da Proteção Civil.
Já se percebeu que para Luís Montenegro a prevenção de riscos não existe e só a gestão política importa, mas, pela sua confrangedora incapacidade de resposta em momentos de crise, a inexistente ministra da proteção civil Maria Lúcia Amaral merece o prémio Laranja Amarga de todas as inundações, incêndios ou apagões.
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