Só a dimensão provinciana, mentalmente remediada e timorata perante as ameaças dos mais fortes, permite compreender o comportamento do Governo de Montenegro nesta semana em que se tornou evidente que o mundo em que quase todos nascemos, e que garantiu na Europa uns invulgares 80 anos de paz, acabou.
Como disse, em Davos, Mark Carney, que em nome do Canadá falou pela decência de todos os cidadãos livres das democracias liberais, não vale a pena ignorar a realidade, dourar a pílula e tolerar os arruaceiros (bullies). Este tempo não é de transição para mais um qualquer ajustamento pontual, é de rutura com a ordem internacional assente na regulação multilateral dos conflitos e as potências médias como o Canadá, e, por maioria de razão os países mais pequenos à escola global, devem definir novas alianças na defesa dos valores comuns.
Entre nós cultiva-se a irrelevância nacional, a indiferença como se nada disto fosse connosco e uma tentativa de assumir posição só comparável à cobarde neutralidade de Luís Montenegro entre o candidato presidencial democrata e o candidato populista e promotor do ódio e da violência.
Quando Portugal tem voz e capacidade para liderar processos de concertação, é um pequeno País que gera figuras com o reconhecimento internacional de Guterres como Secretário-Geral da ONU, de António Costa no Conselho Europeu ou de António Vitorino na Organização Internacional das Migrações.
Já a atual miserabilista governação lusitana, para além do desinteresse e frequente ausência em reuniões internacionais onde pouco pesa, consegue reunir o incrível cadastro, depois de ter achado “benigna” a intervenção de Trump em Caracas, de se calar perante o golpe autoritário no narco-Estado da Guiné-Bissau, e nada dizer sobre o genocídio em Gaza ou o apartheid na Cisjordânia, nem sequer conseguir a libertação de um único luso-venezuelano desde a extração para os Estados Unidos do ditador Maduro. A vizinha Espanha envolveu diretamente o antigo chefe de Governo José Luís Zapatero nas negociações e conseguiu já a libertação de oito presos políticos vítimas do chavismo.
Depois de um ano de favorecimento do agressor Putin na infindável guerra da Ucrânia, que prometeu fazer acabar numa semana, da ação de pirataria na Venezuela motivada pelo interesse na apropriação das maiores reservas de petróleo mundiais, com absoluto desinteresse pelos direitos cívicos dos venezuelanos ou por qualquer transição democrática, e das ameaças à Dinamarca, a propósito da pretensão de anexação da Gronelândia, Donald Trump teve esta semana em Davos o seu momento culminante de glória com a instituição do seu imperial “Board of Peace”.
A visão, assente num mercantilismo de imposição unilateral como modelo de relacionamento internacional, foi reiterada com uma primeira avaliação do eventual valor de compra forçada da Gronelândia tendo em conta o valor por km2 pago em 1867 à Rússia para comprar o Alasca e a variação do dólar e do ouro desde então. Igualmente, poderia ter sido considerado como referência o que foi pago à França em 1803 para ficar com o Louisiana.
A alternativa oferecida à Dinamarca, neste retorno à cultura política do século XIX, se insistir em não querer vender a Gronelândia, nas melhores condições amistosas oferecidas por Donald Trump, pode ser o recurso ao modelo da curta guerra de 1898 entre os Estados Unidos e a Espanha, de que resultou a conquista de Cuba, Porto Rico, Filipinas e Guam.
São estas as referências ideológicas e simbólicas de Trump para conseguir o regresso ao que o insuspeito The Economist chama o “capitalismo de canhoneira”, baseado no domínio dos recursos naturais e do abuso político do comércio internacional com base na lei do mais forte.
O chamado “Board of Peace”, ontem constituído em Davos com a assinatura das lideranças de 20 países, maioritariamente autocracias árabes ou populistas pouco recomendáveis, é uma alternativa grotesca ao sistema multilateral desenvolvido em torno das Nações Unidas desde o final da II Guerra Mundial.
A primeira ação, para além das críticas à ordem internacional e a bajulação da liderança de Donald Trump, foi uma pornográfica apresentação pelo genro do imperador americano dos projetos imobiliários sonhados para tornar a massacrada Faixa de Gaza num resort de luxo mediterrânico.
Portugal está entre os cerca de 60 países, entre os quais 19 membros da União Europeia, convidados para integrar a nova organização destinada a impor a paz dos mais fortes.
Paulo Rangel que foi titubeante no apoio à Dinamarca, e obviamente fracassou na oferta de uma presença solidária, ainda que simbólica, de forças militares portuguesas na ilha do Ártico, conseguiu agora superar-se ao dizer que a participação de Portugal no “Board of Peace” estaria dependente de “consultas com os parceiros”.
Os parceiros foram claros nas suas opções. A Hungria de Orban e a Bulgária estiveram no palco de Davos a assinar o tratado constitutivo da aliança de ditadores, ao lado de Milei, do Paquistão, do Vietnam ou da Bielorrússia. Os nossos aliados europeus como a França, o Reino Unido, a Espanha, a Suécia ou a Bélgica recusaram integrar esta caravana de liderança trumpista.
Portugal seguiu o modelo de neutralidade medíocre que Montenegro já tinha anunciado esta semana a propósito da opção entre Seguro e Ventura na segunda volta das eleições presidenciais. Tal como está equidistante, no plano interno, entre a democracia e o populismo truculento, o Governo tenta agora não optar a nível externo entre a defesa do direito internacional e a subserviência ao novo Conselho da Paz de Trump.
Por ser o porta-voz e artífice da irrelevância internacional de Portugal, desbaratando o prestígio e o capital político conquistados ao longo de décadas de democracia, o prémio Laranja Amarga de hoje vai para o ministro sempre em abstenção pouco vocal Paulo Rangel.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.