“Simplicidade é a chave da verdadeira elegância”
Coco Chanel
Mediante bilhetes que ascendiam dos €150,00 aos €300,00, o Parque Eduardo VII recebeu no domingo passado o “Chic-Nic”, evento que pretendia corresponder a um piquenique de luxo, mediante valores pouco ao alcance da bolsa da maior parte dos lisboetas. A iniciativa, designada de “Um Domingo na Avenida” foi promovida no site como um “chic-nic elegante no coração de Lisboa”, e acaba por ser reflexo do elitismo que PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal e Chega querem para Lisboa
Já de si, trata-se de um conceito bastante discutível, uma vez que os ventos que correm aconselham prudência e a verdadeira elegância nunca teve correspondência com exuberância e ostentação.
Contudo, pior do que a ideia nos tempos que correm e em que se perspetiva uma crise de grande impacto, com o aumento da inflação a disparar e a aumentar exponencialmente o custo de vida, é o facto de ter contado com um apoio de € 75.000,00 da parte da Câmara Municipal de Lisboa, sob a estranha justificação de contar com um concerto e em nada se aludindo ao facto de o organizador ter participado activa e profissionalmente na campanha autárquica de Moedas1. Deste modo, através da EGEAC, estes milhares de euros foram atribuídos, como não podia deixar de ser, por ajuste direto à empresa LOHAD, detida por Gonçalo Castel-Branco, produtor que integrou a equipa técnica da noite eleitoral de Carlos Moedas nas autárquicas de 12 de outubro de 2025.
Quanto mais não fosse por prudência e recato, obviamente Moedas e as empresas que tutela nunca deveriam ter promovido seja lá o que o “Chic-Nic” pretendesse ser. Num momento em que todos lutamos para ter combustível na viatura, electricidade e água em casa e comida na mesa, os apoios da principal Câmara do País deverão estar, como sempre mas agora em especial, vocacionados para o que realmente importa e causas, reais e necessárias, para apoiar não faltam. Importa a este título relembrar que se trata da mesma autarquia que onde falta dinheiro para as cantinas e o lixo se propaga pelo chão e em que a própria EGEAC se encontra em sobressalto e em alegada contenção de custos.
Contudo, o que este apoio também demonstra é um certo deslumbramento com o que só aparentemente é chique, confundindo-se cultura com sub-espécies de espetáculos, cujo único objetivo é o lucro e nos quais nada de novo se aprende ou se retira, nem sequer a ideia de um convívio plural e generalizado.
Por outro lado, a Cultura deve estar acessível a todos e não se confunde com eventos privados, com anúncios de opulência que nada têm que ver com a realidade que se vive. Se a ideia de um teatro em cada bairro, do mandato anterior, encontra eco na difusão de eventos e revelou-se uma opção interessante, este evento anunciado deliberadamente como elitista, sem um cartaz que verdadeiramente interesse, para além da montra de caras que todos já conhecemos e, nalguns casos, bem dispensamos, é desastroso. Desastroso porque vai contra a maré e, essencialmente, desastroso porque permite uma clivagem ainda maior entre os ditos privilegiados e os que lutam diariamente apenas por manter um quotidiano normal.
Nos últimos tempos, Moedas tem sido um presidente pouco consensual, na minha opinião, cargo que tem exercido assente em ideias que podem fazer a diferença e uma enorme apatia perante problemas que realmente prejudicam os lisboetas, como seja a incapacidade de criar mais habitação a preços razoáveis. Por exemplo, Carlos Moedas foi fortemente criticado este mês porque, pelo segundo ano consecutivo, a Câmara de Lisboa (PSD/CDS/IL) não realizou um concerto nas vésperas do 25 de Abril, sendo que mais de 600 personalidades defenderam a necessidade de “ocupar a cidade com Abri”
De todas as ideias que terá tido, assim como de todas as omissões de que pode ser acusado, esta poderá não ter sido a pior. Mas que é emblemática da forma como vê a Cultura e da falta de empatia pelos mais pobres, é um facto incontornável. E isso faz muita diferença.
1Entre outros órgãos de comunicação social, a notícia pode, por exemplo ser consultada aqui.
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