“Dizem que até um monstro tem um momento de bondade, eu nunca tive um momento de bondade, então, não sou um monstro.”
Nero 1
(Inicio este artigo por uma nota pessoal e prévia: não o tendo anunciado e depois de muito ponderar, como provavelmente nunca o terei feito na vida a este propósito, votei Seguro logo na primeira volta. Tomei a decisão antes até dos designados debates e fi-lo com a consciência plena de estar a votar numa pessoa que creio ser honesta, leal e que respeitará o Estado de Direito democrático. Tive a confirmação do acerto da escolha após o debate entre Seguro e Ventura, em que, digam o que disserem, para mim ficou claro que o primeiro saiu claramente vencedor e conseguiu colocar o “menino mal educado” a um canto, sem nunca perder a elevação. Sendo eleito, já percebi que iremos discordar muitas vezes mas, pelo menos, tenho a esperança que nunca tal ocorra em relação aos princípios fundamentais. Sim, foi a este estado de coisas a que nos deixámos chegar, embalados por um discurso de ódio e de inveja constantes que mais não visa do que capitalizar tais sentimentos para um determinado sentido de voto.)
Optei deliberadamente por não fazer uma pausa na reflexão sobre a segunda volta das Presidenciais após uma conversa com um amigo, politicamente bastante longe da extrema direita, na qual este, de forma inesperada, me anunciou que iria votar Ventura, não porque o ache minimamente apto para o cargo mas, ao invés, porque considera que a sua eleição poderia, perante o âmbito de competências que lhe passaria a caber, consubstanciar um mal menor e a médio prazo poderia mesmo radicar na extinção do Chega.
Trata-se, na minha opinião, de um clamoroso erro táctico e jurídico que, depois, já vi reproduzido por outras pessoas.
Recorde-se, porque é absolutamente relevante, que as funções do Presidente da República visam o equilíbrio, a vigilância e a estabilidade do sistema político, sendo um garante da democracia nacional.
Vamos então a factos:
1 – O Presidente da República tem um conjunto de competências atribuídas pela Constituição da República que é bastante mais vasto do que pensamos mas das quais se pode desde já assinalar o direito de veto de qualquer diploma, seja este veto jurídico (com envio para o Tribunal Constitucional, órgão jurisdicional que, como sabemos, Ventura não adora) ou veto político (remetendo para a Assembleia da República, onde o partido que nos governa não tem maioria reforçada, carecendo de outros apoios, Chega incluído). Dito de outra forma, Ventura pode – e, conhecendo o estilo é o que fará – usar o cargo para tornar o PSD cada vez mais dependente do Chega e para o canibalizar, sempre visando uma redução dos direitos dos cidadãos;
2 – Ventura já declarou bastas vezes que tem um sentido muito próprio do que é a representação institucional de Portugal, junto de outros países, outra das suas incumbências, apenas aceitando manter um comportamento normal quanto concorda com os respetivos dirigentes, como se viu, entre outros episódios menos dignificantes ainda, na visita institucional de Lula a Portugal, posição reiterada nos debates presidenciais2;
3 – Ventura terá o poder de dissolver a Assembleia da República e demitir o Governo, bastando para tal uma mera fundamentação repleta de conceitos indeterminados;
4 – Ventura nada percebe da estrutura militar, sendo que, caso ganhe, terá que assumir a função de Comandante Supremo das Formas Armadas mas, pior que tudo, não existem verdadeiros quadros no seu partido que o possam sequer auxiliar3;
5 – Ventura não tem, nem nunca teve, qualquer objetivo de ser Presidente da República e só o será porque tal representa poder e dinheiro, não para promover o bem estar dos Portugueses, mas para afetar ao seu projeto pessoal que nem sequer tem a ver propriamente com o Chega, mero meio para chegar a um fim.
Ou seja, ao contrário do que defendem alguns amigos, esta não é seguramente a melhor forma de tentar travar o avanço da extrema direita porque do que se trata é de se lhes assegurar maior poder4.
Dito isto, importa que se relembre que, para os que estão fora da seita, votar em Ventura poderia ser um voto de protesto se não fosse tão perigoso. Acima de tudo, representa ou colocar o Nero que Portugal merece à frente dos nossos desígnios ou defender que o dinheiro ou a posição social são os mais importantes de todos os valores. Não o nosso dinheiro, claro. O dele, já que, afinal, é disto que se trata e foi sempre disto que se tratou.
(1) Nero foi o quinto e último imperador da dinastia Júlio-Claudiana (54-68 d.C.), recordado como um governante bastante controverso, marcado por tirania, extravagância e perseguição aos cristãos, visto como um déspota pelos historiadores da época, especialmente após o Grande Incêndio de Roma em 64 d.C., que o levou ao suicídio forçado.
(2) Como o afirmou explicitamente no debate com Marques Mendes, em que disse “Lula da Silva é corrupto e ladrão”, curiosamente nada referindo sobre o seu amigo Bolsonaro, da mesma forma que tem mantido um prudente silêncio sobre outros (mal) designados estadistas de direita, alguns deles condenados a penas de prisão justamente por corrupção e branqueamento de capitais, temas que lhe parecem tão caros, excepto quando lhe batem à porta.
(3) Voltaremos a esta temática daqui a umas semanas, em especial no que se reporta às brilhantes contratações feitas para a cidade de Lisboa.
(4) Sendo que cada país tem a extrema direita que merece e nós nem conseguimos que a mesma se assuma como tal. Enquanto as dos demais países dizem claramente ao que vão, neste doce retângulo, Ventura procura fazer olhos doces e colocar o enfoque apenas nas classes mais frágeis socialmente, virando-nos uns contra os outros. Assim que uma das suas grandes causas deixa de causar tanto alarde, logo arranja outra, para depois recuperar a inicial, num círculo vicioso.. Foi assim com os ciganos, com os imigrantes, com os que recebem subsídios, entre tantos outros. Contudo, curiosamente, nunca o vi a falar sobre as contratações e nomeações feitas pelo seu próprio partido e quais forma exatamente os critérios usados, designadamente se acha razoável ter tido familiares que foram nomeados sem qualquer curriculum prévio, a não ser insolvências prévias ou um rasto de dívidas.
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