Há tradições escolares que parecem tão naturais que raramente nos detemos a questioná-las.
Os quadros de mérito são uma delas. Todos os anos, em inúmeras escolas, os nomes dos alunos que obtiveram os melhores resultados são destacados, afixados, publicados ou celebrados em cerimónias próprias. São apresentados como exemplos de dedicação, responsabilidade, empenho e excelência. E, à partida, parece difícil encontrar algo de errado em reconhecer quem trabalha, quem se esforça e quem alcança bons resultados.
Mas será que distinguir os melhores alunos é, necessariamente, a melhor forma de promover o mérito? Será que estamos, realmente, a incentivar todos a aprender ou estamos, inadvertidamente, a criar uma escola onde alguns são reconhecidos por chegar mais longe enquanto outros aprendem, desde muito cedo, que dificilmente terão lugar nesse palco?
A questão merece ser colocada sem preconceitos. Sei que tenho filhos academicamente brilhantes, mas também sei que eles têm colegas que jamais o conseguirão ser. Sei que recebi um galardão de mérito académico universitário, mas sei que muitos dos meus colegas dificilmente o conseguiriam obter.
Não se trata de defender uma escola onde o esforço não seja valorizado, nem de negar o mérito de quem alcança excelentes resultados.
Trata-se, antes, de perguntar que conceito de mérito queremos transmitir às crianças e aos jovens e que impacto têm estas práticas na sua relação com a aprendizagem, com os colegas e consigo próprios.
Porque uma escola não deve apenas ensinar conteúdos. Deve também ensinar valores.
O princípio parece simples: quem obtém os melhores resultados merece ser reconhecido. O problema começa quando confundimos resultado com mérito.
Um aluno que termina o período com médias elevadas pode, sem dúvida, ter trabalhado muito. Mas também pode ter beneficiado de condições familiares, económicas, emocionais e educativas que lhe permitiram estudar com tranquilidade, ter apoio escolar, explicações, acesso a livros, tecnologia, acompanhamento parental ou simplesmente um ambiente favorável à aprendizagem.
Outro aluno pode começar exatamente no mesmo ano letivo com dificuldades muito maiores. Pode ter passado por problemas familiares, dificuldades económicas, barreiras linguísticas, necessidades educativas específicas ou simplesmente apresentar um ritmo de aprendizagem diferente. Talvez termine o ano com uma classificação que esteja longe de permitir-lhe entrar num quadro de mérito. Mas talvez tenha feito algo extraordinário: passou de uma negativa para uma positiva, começou finalmente a gostar de ler, deixou de desistir perante um problema matemático ou conseguiu apresentar um trabalho diante da turma depois de meses a lutar contra a sua insegurança.
Onde está, nesse caso, o mérito? Existe. E pode ser enorme. A questão é que esse mérito nem sempre cabe numa média.
Quando a escola coloca no centro da celebração apenas os resultados finais, corre o risco de tornar invisíveis muitas outras formas de excelência: o aluno que se esforça e nunca chega ao quadro.
Há uma questão, particularmente, delicada que raramente é discutida: o que acontece aos alunos que trabalham muito, mas não conseguem atingir os resultados necessários para serem reconhecidos?
Uma criança pode estudar horas a fio e continuar a obter uma classificação de 13. Outra pode estudar muito menos e conseguir um 18. Quem merece maior reconhecimento? A resposta não é simples.
Se olharmos apenas para o resultado, a segunda criança será considerada mais bem-sucedida. Mas se olharmos para o percurso, talvez a primeira tenha realizado um esforço, incomparavelmente, maior.
É aqui que o conceito de mérito se torna complexo.
A escola não pode medir apenas aquilo que é fácil quantificar. O esforço, a persistência, a capacidade de ultrapassar dificuldades, a evolução individual, a cooperação com os outros e a superação pessoal são dimensões fundamentais do desenvolvimento de uma criança.
Estaremos a promover a motivação e a cultura do esforço ou, pelo contrário, a reforçar desigualdades que começam muito antes de uma criança se sentar numa sala de aula?
O que acontece a todos os alunos que não estão no quadro de mérito?
Os que estudaram muito, mas não chegaram à média necessária. Os que começaram o ano com dificuldades e terminaram muito melhor, mas continuam longe dos resultados dos colegas. Os que têm capacidades extraordinárias numa determinada área, mas não conseguem transformar essas capacidades em classificações elevadas. Os que lutam diariamente com dificuldades que ninguém vê.
Será que esses alunos sentem que o seu esforço também foi reconhecido? Ou aprendem, silenciosamente, que na escola há quem mereça aplausos e quem tenha de se contentar com a sensação de não ter conseguido?
O mérito é uma questão de notas? Esta é, provavelmente, a questão central.
Não há qualquer problema em reconhecer um aluno que obtém excelentes resultados. Seria absurdo defender que a excelência deve ser ignorada em nome de uma falsa igualdade. O esforço merece reconhecimento e o sucesso académico também. O problema começa quando confundimos mérito com classificação. Uma nota é um resultado. O mérito é muito mais complexo.
Um aluno pode tirar 19 valores com acompanhamento familiar, explicações e todas as condições para aprender. Outro pode tirar 13 depois de estudar sozinho, ultrapassando dificuldades de aprendizagem, falta de apoio ou circunstâncias familiares, particularmente, exigentes. Quem teve mais mérito?
Não temos como saber apenas olhando para a pauta. E é precisamente aí que os quadros de mérito levantam uma questão de justiça que merece ser discutida.
A escola avalia resultados porque precisa de critérios objetivos. Mas a vida de um aluno não cabe numa média final.
Gostamos de acreditar que a escola é o grande espaço de igualdade da sociedade. E deve sê-lo. Mas igualdade de oportunidades não significa que todas as crianças cheguem à escola com as mesmas oportunidades.
Há crianças que têm pais disponíveis para ajudar nos trabalhos de casa. Há outras cujos pais chegam tarde a casa. Há quem tenha um quarto próprio, computador, livros, internet, explicações e atividades extracurriculares. Há quem não tenha nada disso.
Há alunos que dormem oito horas e chegam descansados à escola. Outros vivem realidades familiares que lhes roubam concentração, tranquilidade e energia. Há crianças que crescem rodeadas de livros e conversas sobre cultura, viagens e conhecimento. Outras têm pouco contacto com esses estímulos. Tudo isto influencia a aprendizagem.
Não significa que o contexto determine o destino de uma criança. Felizmente, não determina. Há inúmeros exemplos de alunos que ultrapassam circunstâncias adversas e alcançam resultados extraordinários. Benditos resilientes.
Mas não podemos olhar para o resultado final sem olhar para o caminho percorrido.
Quando premiamos apenas a classificação, corremos o risco de transformar diferenças de contexto em diferenças de mérito. E isso é muito mais complexo do que parece. A competição motiva? Sim. Mas não sempre
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