Durante muito tempo, para a ciência, o corpo humano teve apenas um género. Era masculino. Não porque as mulheres não existissem, não porque não adoecessem, não porque não sentissem dor. Mas porque a ciência, como tantas outras estruturas da nossa sociedade, foi construída durante demasiado tempo a partir de uma perspetiva que tomou o homem como medida do humano. E quando o homem é a medida, tudo o que não cabe nessa medida passa a ser desvio, particularidade, exceção. O problema é que as excepções somos nós.
Ainda hoje sabemos menos sobre o corpo feminino do que seria aceitável. Sabemos menos sobre determinadas doenças que afetam maioritariamente mulheres, sabemos menos sobre a forma como algumas patologias se manifestam nelas e continuamos a ter lacunas importantes na investigação de condições que podem afetar profundamente a sua qualidade de vida. A endometriose é talvez um dos exemplos mais evidentes.
Durante décadas, milhões de mulheres ouviram que ter dores menstruais era normal, mesmo quando se tornavam incapacitantes. Que era preciso aguentar. Que fazia parte de ser mulher. Enquanto a dor era normalizada, a doença permanecia escondida.
Enquanto nós aprendíamos a viver com a doença, a ciência demorava a olhar para ela. Não é apenas uma questão de falta de conhecimento médico. É também uma questão de prioridades. Enquanto sociedade, aquilo que investigamos diz muito sobre aquilo que consideramos importante. E aquilo que durante décadas ficou por investigar diz-nos, também, quem ficou de fora da equação.
A história da medicina está cheia de exemplos de corpos femininos interpretados através de lentes masculinas. E não precisamos de acreditar que existiu uma conspiração para reconhecer que existiram, e ainda existem, desigualdades estruturais. A ciência corrigiu muito. Mas ainda não corrigiu tudo. E talvez seja por isso que continuamos a ter mulheres a chegar ao diagnóstico de endometriose depois de anos de dor.
Talvez seja por isso que tantas mulheres passam anos a ouvir que a dor é psicológica, que é ansiedade, que é
exagero, que é falta de tolerância. Talvez seja por isso que uma mulher pode conhecer profundamente o seu corpo e, ainda assim, ter de lutar para que alguém acredite nela. A desigualdade não está apenas no consultório. Está também na escola, no trabalho, na família, na política, nos salários, na divisão do cuidado e na forma como educamos raparigas e rapazes. E é por isso que continuo a achar que precisamos de falar de
feminismo. Mesmo quando algumas pessoas parecem cansadas da palavra. Mesmo quando nos dizem que já não é preciso. Mesmo quando há mulheres a dizer-nos que o feminismo é uma guerra contra os homens, que as mulheres devem regressar ao lar, que a verdadeira realização feminina está em cuidar da casa, do marido e dos filhos.
Nada há de errado numa mulher escolher ficar em casa para cuidar dos filhos. O problema começa quando uma escolha individual é transformada numa regra moral para todas as mulheres. E torna-se particularmente difícil levar esse discurso a sério quando algumas das mulheres que nos dizem que o lugar da mulher é no lar fazem essa defesa a partir de lugares conquistados precisamente através das lutas feministas que dizem rejeitar.
Enquanto propagam que a mulher deve ser do lar e depender do marido, recebem salários como deputadas. Ocupam cargos públicos. Têm profissões. Constroem negócios. Tornam-se figuras públicas. Recebem dinheiro de marcas e de parcerias. Rentabilizam monetariamente a sua presença nas redes sociais. Nada disso é um problema. Pelo contrário. É liberdade. A liberdade de uma mulher trabalhar, ganhar dinheiro, ocupar o espaço público, decidir ficar em casa ou decidir fazer todas essas coisas ao mesmo tempo.
A contradição começa quando essa liberdade é utilizada para defender e influenciar que outras mulheres não tenham a mesma liberdade.
É muito fácil defender que a mulher deve estar no lar enquanto se usufrui, sem hesitação, dos direitos que permitiram à própria mulher sair dele. É muito fácil dizer a outras mulheres que não precisam de independência económica quando a independência económica é precisamente aquilo que permite escolher. E é aqui que o feminismo continua a ser necessário. Não para dizer às mulheres como devem viver. Mas para garantir que podem escolher como querem viver.
O feminismo não é sobre substituir uma obrigação por outra. O feminismo não troca o “tens de ser mãe” pelo “tens de ser profissional”. Não pretende dizer a uma mulher que cuidar dos filhos é menos importante do que construir uma carreira. Pretende apenas que nenhuma destas escolhas seja imposta como destino. Porque liberdade sem possibilidade de escolha não é liberdade.
E esta discussão parece estar, à primeira vista, muito distante da endometriose. Não está. Uma mulher com endometriose pode precisar de faltar ao trabalho porque está com dores. Pode precisar de mudar de profissão porque o corpo já não acompanha determinado ritmo. Pode precisar de adaptar a sua vida. Pode ter dificuldades de fertilidade. Pode precisar de tratamentos prolongados, de cirurgia, de apoio psicológico, de tempo. E pode, sobretudo, precisar de uma sociedade que não lhe diga que deve simplesmente aguentar.
Durante demasiado tempo, foi isso que fizemos às mulheres. Talvez esteja na altura de perguntarmos por que razão a capacidade de aguentar se tornou uma virtude feminina.
Precisamos de mais investigação sobre aquilo que ainda não conhecemos. Precisamos de profissionais de saúde preparados para reconhecer sintomas que durante décadas foram desvalorizados. Precisamos de escolas onde uma menina aprenda que a menstruação não é vergonha e que dor incapacitante não é uma inevitabilidade. Porque quando uma mulher passa anos com dor sem diagnóstico, não estamos apenas perante uma falha médica. Estamos perante uma história muito maior. A história de um corpo que não foi
suficientemente estudado. De uma dor que não foi suficientemente ouvida.
E talvez seja por isso que a luta pela saúde das mulheres seja também uma luta feminista. Porque uma mulher a quem não se reconhece a dor é uma mulher a quem se limita a liberdade. A endometriose não deve decidir o que podemos fazer, que trabalho podemos ter ou que vida podemos construir. E nenhuma ideologia deve fazê-lo por nós. O feminismo não quer dizer às mulheres quem devem ser. Quer garantir que podem ser quem quiserem. Que podem cuidar dos filhos ou construir uma carreira, fazer as duas coisas ou nenhuma delas, ficar em casa ou ocupar todos os espaços que quiserem. Que podem escolher sem que o seu corpo, a sociedade ou os preconceitos decidam por elas. É por isso que continuamos a lutar: para que nenhuma mulher tenha de pedir licença para existir fora do lugar que alguém decidiu que lhe pertence. E para que, finalmente, o seu corpo deixe de ser uma exceção e passe a ser, simplesmente, parte daquilo que a ciência, a medicina e a sociedade também sabem ouvir.
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