Há histórias que nos ajudam a perceber aquilo que um país pode estar a desperdiçar. A história de Nelson Évora é uma delas.
Antes das medalhas, dos títulos mundiais e europeus e do ouro olímpico, houve algo mais simples: um professor, um jovem e uma escola.
João Ganço, professor de Educação Física e vizinho de Nelson Évora, convidou-o para treinar na Escola Secundária da Ramada.
Foi naquele contexto que Nelson começou a desenvolver as capacidades que o levariam ao topo do atletismo mundial. João Ganço tornar-se-ia o seu treinador, acompanhando-o durante cerca de 25 anos e numa parte fundamental de uma das maiores carreiras do desporto português.
A história é excecional. Mas aquilo que esteve na sua origem não deveria ser.
Um professor identificar as capacidades de uma criança e proporcionar-lhe a possibilidade de experimentar uma modalidade deveria fazer parte do nosso sistema educativo e desportivo. O talento está distribuído por todo o território e por todas as condições sociais. As oportunidades é que não estão.
Primeiro formar crianças, depois atletas.
O primeiro objetivo do Desporto Escolar não é encontrar o próximo campeão olímpico. É promover saúde, combater o sedentarismo, reter os jovens na prática desportiva e proporcionar a todas as crianças o contacto com diferentes modalidades, criando hábitos que podem acompanhá-las durante toda a vida.
Para muitos alunos, o Desporto Escolar representa mesmo a única oportunidade gratuita de acesso a uma prática desportiva orientada, tornando-se, por isso, uma importante ferramenta de igualdade de oportunidades.
Mas esta missão inclusiva não deve impedir a identificação e o desenvolvimento do talento. O grande desafio é precisamente conciliar as duas dimensões: massificar a prática e identificar potencial.
Para isso, o processo deve seguir uma lógica de funil progressivo e sustentável: uma base tão ampla quanto possível de crianças a praticar desporto, a identificação gradual de interesses e aptidões e, para aqueles que querem e podem evoluir, uma ligação estruturada ao desporto federado.
O Desporto Escolar deveria, assim, ser uma das principais portas de entrada para os clubes. A escola possui uma vantagem que nenhuma estrutura desportiva consegue reproduzir: chega praticamente a todas as crianças.
A chegada a um clube depende da família, dos transportes, dos horários, da proximidade das instalações e, por vezes, da capacidade financeira.
A escola já tem as crianças.
Precisamos, por isso, de uma verdadeira ligação entre escolas, clubes, autarquias e federações. A escola não deve funcionar como um filtro, mas como uma rede de captação, desenvolvimento e encaminhamento.
A criança deveria experimentar modalidades na escola e, quando demonstrasse vontade e aptidão para continuar, encontrar uma ponte organizada para os clubes da sua comunidade.
Hoje, essa ligação depende demasiadas vezes da iniciativa individual de um professor. Precisamos de um sistema estruturado em que identificar um jovem com potencial desencadeie naturalmente uma ligação ao clube ou à federação da respetiva modalidade.
Quantos talentos nunca chegaram a uma pista, piscina, campo ou pavilhão porque ninguém lhes proporcionou essa oportunidade?
Para que isto aconteça, existe uma condição essencial.
O Desporto Escolar não pode continuar predominantemente remetido para depois das aulas ou para as horas de almoço.
Aquilo que deveria ser uma oportunidade para todos acaba por ficar limitado àqueles que conseguem permanecer mais tempo na escola.
Há ainda outro efeito: à medida que os estudos se tornam mais exigentes, muitos jovens acabam por abandonar a prática desportiva. Perante horários escolares rígidos e a necessidade de escolher entre estudar e treinar, o desporto é frequentemente aquilo de que se abdica.
Se consideramos o desporto importante para a formação de uma criança, temos de lhe dar tempo dentro do horário escolar.
Mas existe outro problema.
Muitos pavilhões escolares já estão ocupados durante praticamente todo o dia. As escolas têm muitas turmas e, naturalmente, todas precisam desses espaços para as aulas de Educação Física.
Por isso, integrar o Desporto Escolar no horário obriga-nos a discutir simultaneamente tempo, instalações e currículo.
Não podemos querer mais prática desportiva, manter exatamente a mesma organização e esperar que apareçam horas disponíveis nos horários e nos pavilhões.
Ao longo dos anos temos pedido cada vez mais à escola.
Sempre que surge uma nova competência ou preocupação, acrescentamos conteúdos e responsabilidades aos programas e raramente questionamos: o que estamos disponíveis para retirar?
Não faz sentido que participar numa competição de Desporto Escolar implique faltar às aulas e que essas ausências sejam vistas como um problema, porque os professores precisam dessas horas para cumprir os conteúdos previstos. Se o Desporto Escolar faz parte da escola, não pode ser tratado como algo que acontece à margem dela.
Se queremos integrá-lo no horário, talvez seja necessário discutir a redução ou reorganização da carga curricular.
Isso não significa desvalorizar a aprendizagem académica. Significa perguntar se a qualidade da educação se mede apenas pelos conteúdos transmitidos e pelas horas passadas numa sala de aula.
Educar é também desenvolver corpo e mente, trabalhar em equipa, respeitar regras, superar dificuldades e construir hábitos de vida saudável.
O desporto também é educação.
Precisamos de pensar a escola como a verdadeira base da pirâmide desportiva.
Uma criança experimenta uma modalidade na escola. Gosta. Participa. Evolui. E, quando quer continuar, deverá encontrar uma ligação aos clubes da sua terra.
Os professores deverão conhecer os clubes, as autarquias deverão articular instalações, transportes e recursos e as federações deverão apoiar o desenvolvimento das modalidades.
Acima de tudo, escola e clube não podem disputar o tempo do jovem. Têm de trabalhar em conjunto para o manter no desporto.
Escola, autarquia, clubes e federações passam, assim, a constituir um verdadeiro sistema desportivo.
As crianças teriam mais oportunidades, os clubes receberiam mais jovens e Portugal aumentaria a sua base de praticantes e a capacidade de identificar talento.
Mas, com a realidade atual, quantos convites ficaram por fazer?
Voltemos ao princípio.
Um professor, que era também vizinho de um jovem, convidou-o para treinar numa escola. O atleta deu o salto da escola para um clube. Do clube chegou à seleção nacional e, representando Portugal, alcançou o título olímpico.
Neste momento, não sabemos quem será o próximo Nelson Évora, mas sabemos que está numa escola.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.