Julho é, para muitas crianças e jovens, o mês em que termina mais uma época desportiva. É o tempo de celebrar conquistas, analisar o que correu menos bem, mas, acima de tudo, é tempo para descansar.
Vivemos numa sociedade onde, tantas vezes, confundimos dedicação com excesso. Onde acreditamos que quem nunca para terá sempre vantagem sobre os outros.
O maior erro que muitos pais cometem no final da época é acreditar que os filhos precisam de continuar a treinar. A ciência diz precisamente o contrário: para evoluir, um jovem atleta precisa também de aprender a descansar.
Os fisiologistas do exercício e os especialistas em medicina desportiva são claros a defender a importância de um verdadeiro período de interrupção da modalidade principal no final da época.
Num artigo publicado pela National Athletic Trainers’ Association (NATA), e apoiado por cinco associações profissionais de treinadores das ligas de futebol americano, basebol, basquetebol, hóquei e futebol, defende-se que os adolescentes e jovens atletas não devem praticar a mesma modalidade durante mais de 8 meses por ano. Deve haver um período anual em que as crianças e jovens não praticam a sua modalidade principal, permitindo a recuperação física e mental.
Também a American Medical Society for Sports Medicine (AMSSM) recomenda expressamente o agendamento de períodos regulares de descanso, os quais podem permitir que as crianças e jovens experimentem novas modalidades.
Descansar não significa ficar parado no sofá durante semanas. Significa interromper os estímulos repetitivos da modalidade habitual. Um jovem futebolista pode experimentar natação, ciclismo ou jogos de praia. Um ginasta pode caminhar, jogar padel ou jogar basquetebol. O corpo continua ativo, mas recebe estímulos diferentes, reduzindo o desgaste físico e mental e promovendo um desenvolvimento motor mais completo.
A AMSSM indica que a prática diversificada de modalidades durante a infância e o início da adolescência pode favorecer o desenvolvimento de competências transferíveis e conduzir, mais tarde, a um melhor rendimento na modalidade principal. Talvez por isso o SL Benfica, nos escalões de formação de futebol, proporcione semanalmente aos seus atletas, para além dos treinos de futebol, aulas de dança e treino de futsal.
Também o Comité Olímpico Internacional (COI) defende que as crianças e os jovens beneficiam de uma prática desportiva diversificada, evitando a especialização precoce, uma vez que esta melhora o desenvolvimento motor, reduz o risco de lesões por sobrecarga, aumenta a probabilidade de uma carreira desportiva mais longa e promove um maior prazer pela prática desportiva.
As férias desportivas têm benefícios que vão muito além da recuperação muscular. Permitem diminuir o risco de lesões por sobrecarga, recuperar a motivação, reduzir a fadiga psicológica e regressar aos treinos com entusiasmo renovado. O descanso também treina.
Infelizmente, assistimos cada vez mais a uma realidade preocupante. Mal termina a época, alguns pais tratam de preencher esse espaço contratando treinos individuais com personal trainers, na convicção de que os filhos chegarão mais preparados à época seguinte.
Compreendo a intenção. Todos queremos dar o melhor aos nossos filhos. Mas, muitas vezes, acabamos por lhes retirar precisamente aquilo de que mais precisam: tempo para recuperar.
Uma criança ou um jovem não é um atleta profissional em miniatura. Está numa fase de crescimento físico, desenvolvimento neurológico, aprendizagem escolar e construção emocional. Precisa de brincar, de estar com os amigos, de passar tempo em família, de descobrir outras experiências e, naturalmente, de descansar.
Mais horas de treino não significam necessariamente melhor desempenho. Pelo contrário, o excesso de carga aumenta o risco de lesões, de fadiga crónica, de abandono precoce da modalidade e, sobretudo, de perda do prazer pelo desporto.
Se queremos formar atletas melhores, devemos começar por formar jovens mais saudáveis.
O sucesso desportivo não se constrói apenas nos dias de treino intenso. Também se constrói nos dias em que o corpo recupera, a mente descansa e a motivação se renova.
Neste verão, talvez o melhor treino que possamos oferecer às nossas crianças e jovens seja permitir-lhes fazer aquilo que tantas vezes esquecemos: descansar.
Porque, no desporto como na vida, parar também faz parte do caminho.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.