Um dia igual a tantos outros, o smartphone toca e olhamos para o ecrã. O número é desconhecido. O indicativo é estrangeiro. Antes de conseguirmos atender, a chamada termina. Ficamos a olhar para o smartphone durante alguns segundos, com uma dúvida quase automática: quem seria? Será importante? Devo ligar de volta?
A dúvida instala-se. E é precisamente nesse momento que começa o verdadeiro ataque. Não no smartphone. Não na tecnologia. Apenas em nós.
Já não é propriamente uma novidade que muitos portugueses recebem chamadas que tocam apenas uma ou duas vezes antes de serem interrompidas. Não parecem um ataque. À primeira vista, são inofensivas. Ninguém falou. Ninguém pediu dinheiro. Ninguém tentou convencer-nos de nada.
No entanto, isso não significa que a tentativa tenha falhado. Muito pelo contrário. O objetivo pode ter sido apenas um: despertar a nossa curiosidade. Talvez manipular as nossas emoções. Talvez instalar uma inquietação suficientemente forte para nos levar a agir.
Este tipo de fraude tem um nome: Wangiri, uma expressão japonesa que significa, literalmente, “tocar e desligar”. O método é simples. O atacante realiza uma chamada muito breve e desliga antes de o destinatário conseguir atender, esperando que este, movido pela curiosidade, pela preocupação ou pela sensação de ter perdido algo importante, devolva a chamada.
Porque é esta estratégia eficaz? Porque não explora propriamente uma vulnerabilidade do telefone. Explora uma vulnerabilidade humana.
Quando perdemos uma chamada e não conseguimos identificar quem está do outro lado, o nosso cérebro procura imediatamente uma resposta. Uma explicação que nos ajude a criar contexto.
Pode ser um familiar. Pode ser, quem sabe, uma oportunidade de trabalho. Talvez seja aquela encomenda. Talvez seja alguém que conhecemos e que precisa da nossa ajuda.
A incerteza incomoda-nos. E, muitas vezes, neste contexto, a forma mais rápida de a eliminar parece ser devolver a chamada.
É precisamente essa reação que o Wangiri procura provocar.
Dependendo do esquema utilizado, devolver a chamada pode significar algo tão simples como ligar para um número de valor acrescentado, originando uma despesa tão surpreendente como desagradável. Noutros casos, o simples facto de alguém devolver a chamada perdida pode confirmar que aquele número está ativo e pertence a uma pessoa disponível para reagir. Como acabou de acontecer.
Essa informação pode depois ser utilizada em futuras campanhas de fraude, mais direcionadas, mais persistentes e, por isso, mais convincentes.
O telefone foi apenas o primeiro passo. Não foi o alvo. Foi o meio. O verdadeiro objetivo era provocar uma decisão. E a nossa decisão foi responder àquilo que, na realidade, era um convite à fraude.
É por isso que este fenómeno merece a nossa atenção. Não porque utilize tecnologia sofisticada, mas porque nos recorda uma verdade simples: algumas fraudes começam muito antes de alguém pedir dinheiro, códigos ou dados pessoais.
Começam quando alguém consegue influenciar a forma como pensamos e agimos muito antes de refletir. É por isso que este pequeno exercício é tão importante: parar durante alguns segundos e pensar.
A curiosidade, o receio de perder uma oportunidade, a sensação de urgência e o impulso de agir sem pensar são mecanismos profundamente humanos. E é precisamente por serem humanos que são explorados por quem procura manipular o nosso comportamento.
Quando sentimos que temos de resolver uma situação naquele momento, deixamos de avaliar com calma aquilo que está realmente a acontecer e ligamos o piloto automático.
Importa perceber que o Wangiri é apenas um exemplo. Amanhã, ou depois de amanhã, poderá surgir outro nome, outra técnica ou outro canal de contacto. Em vez de uma chamada, poderá ser uma mensagem, um e-mail, uma interação nas redes sociais ou qualquer outro estímulo criado para provocar uma resposta impulsiva.
A tecnologia muda, mas o comportamento humano continua a ser o mesmo.
Por isso, a melhor defesa não passa por decorar o nome de todas as fraudes que surgem. Passa, sobretudo, por criar um hábito simples: parar, pensar e só depois decidir.
Sabemos que nem todas as chamadas desconhecidas são fraudulentas. Mas nenhuma chamada perdida exige uma reação automática.
Se o contacto for realmente importante, haverá uma nova tentativa, uma mensagem ou outro meio legítimo de chegar até nós. Poucos assuntos verdadeiramente urgentes desaparecem apenas porque não atendemos o smartphone à primeira tentativa.
A questão nunca foi apenas o indicativo internacional. Nem sequer a chamada.
A verdadeira questão é perceber como uma ação de poucos segundos pode influenciar uma decisão que tomamos quase sem pensar.
É essa decisão que os burlões procuram.
E é aí que começa a verdadeira segurança.
Segurança não é técnica. É humana.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.