Em 2020, existiam na Europa quase 24 milhões de sobreviventes de cancro, o equivalente a 5% da população daquele continente. Em apenas dez anos, este número cresceu 41%. E quase 15 milhões dessas pessoas estavam vivas há mais de cinco anos após o diagnóstico.
Para perceber a dimensão desta mudança, basta olhar para o cancro da mama. É o mais diagnosticado em mulheres no mundo, com 2,3 milhões de novos casos por ano, segundo a Agência Internacional para a Investigação do Cancro. É também um dos exemplos mais claros da revolução terapêutica em curso. A taxa global de sobrevivência aos cinco anos ultrapassa hoje os 90%, reflexo de décadas de avanços no rastreio precoce, nas terapêuticas dirigidas e na imunoterapia. Há mulheres a criar os filhos que, com os protocolos de há 20 anos, talvez não tivessem visto crescer.
São boas notícias, sem dúvida, mas também reveladoras de uma mudança de paradigma menos discutida: o cancro passou a ser, em muitos casos, uma doença crónica, uma condição prolongada, e os sistemas que organizam a vida das pessoas não acompanharam essa transformação.
Imagine que é diagnosticado com cancro aos 40 anos. Faz tratamentos, entra em remissão e quer retomar a sua vida: voltar ao trabalho, pedir um crédito, renovar um seguro de vida. A ciência está do seu lado. O médico diz-lhe que está curado. Mas o sistema, seja o empregador, o banco ou a seguradora, continua a agir como se o prognóstico de 1995 ainda fosse válido.
Um estudo da Comissão Europeia, publicado em 2024 pela Agência Executiva Europeia para a Saúde e o Digital, concluiu que, na maioria dos países da União Europeia, não existe enquadramento específico para a reintegração profissional de sobreviventes de cancro. Os principais obstáculos são claros: ausência de apoio estruturado, falta de flexibilidade laboral e persistência do estigma. Ao mesmo tempo, 36% dos novos diagnósticos na Europa ocorrem em pessoas em idade ativa, segundo a Organização Mundial de Saúde.
No acesso a serviços financeiros, a discriminação é ainda mais concreta. Um historial oncológico pode inviabilizar um empréstimo, uma hipoteca ou um seguro de vida, mesmo quando a cura foi declarada há anos. Para responder a esta realidade, Portugal aprovou, em 2021, a chamada Lei do Esquecimento, que protege as pessoas que superaram doenças graves no acesso ao crédito e aos seguros em determinadas condições. Ainda assim, só em março de 2026 o regime foi clarificado e ultrapassadas as dificuldades para a sua aplicação. Apenas 10 países da União Europeia já adotaram medidas semelhantes, evidenciando o desfasamento entre o avanço da medicina e a resposta legislativa.
Mas o impacto desta transformação não se limita a quem sobrevive. Estende-se a quem cuida.
Quando o cancro, uma doença antes tratada em meses, passa a ser acompanhada ao longo de anos, o papel do cuidador informal deixa de ser temporário e pode tornar-se permanente. Nestas famílias, há frequentemente alguém que reduz o tempo de trabalho, adia a reforma ou abdica de projetos pessoais. E, no entanto, essa pessoa continua muitas vezes fora das estatísticas e com apoios ainda insuficientes para a dimensão da sua carga.
Durante décadas, a oncologia organizou-se em torno de uma pergunta: como tratar? E respondeu de forma extraordinária. Mas, à medida que essa resposta melhorou, tornou-se evidente uma segunda questão, ainda pouco trabalhada: como viver depois? Como regressar ao trabalho quando a fadiga crónica pós-tratamento nem sempre é reconhecida? Como planear uma carreira ou uma reforma quando anos de cuidados informais não contam para efeitos contributivos?
O estigma de que quem sobreviveu ao cancro fica necessariamente limitado é uma herança de uma era médica ultrapassada, mas continua a influenciar decisões de empregadores, instituições financeiras e, muitas vezes, das próprias pessoas.
A sobrevivência é hoje possível muito mais vezes do que no passado. Mas esse é apenas o primeiro passo. Garantir que essa sobrevivência tem qualidade, dignidade e equidade continua a ser um desafio por resolver.
A ciência fez a sua parte. Transformou diagnósticos fatais em condições prolongadas, devolveu anos e décadas de vida. Agora cabe à sociedade acompanhar essa evolução. Adaptar o direito laboral, os sistemas de proteção social e as políticas públicas ao mundo que a inovação criou. Porque a revolução oncológica não pode ficar confinada aos hospitais; tem de acontecer também fora deles, onde a vida realmente recomeça.
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