Corria o ano de 2007 e estava há um ano a dar apoio de secretariado na Embaixada do Irão em Lisboa. Tinha 24 anos e era o meu primeiro emprego. Era demasiado nova e inexperiente para aquele trabalho e também demasiado nova para reconhecer as complexidades de um regime político que estava a fazer a transição da Presidência reformista e progressista de Khatami para a Presidência repressiva e marcadamente mais religiosa de Ahmadinejad. Entre várias funções, o corpo administrativo tinha de acompanhar as notícias publicadas sobre o Irão na imprensa e foi precisamente nesse ano que o Festival de Cannes atribuiu o Prémio do Júri a uma animação de nome Persépolis. Uma das realizadoras era uma iraniana de nome Marjane Satrapi, radicada em França, e a animação era baseada na sua novela gráfica, publicada em 2000, muito crítica do regime iraniano.
Quando a animação se estreou finalmente num dos festivais de cinema em Lisboa, senti-me perante uma obra-prima que me tocou profundamente. Ali estava alguém proveniente de um país isolado do mundo por ação de um regime islâmico, a partilhar a sua história extraordinária num estilo ao gosto ocidental, a banda desenhada e a animação. Através da sua perspetiva pessoal e familiar, Satrapi contava o percurso histórico trágico e atribulado do seu país, desde a queda do xá e a Revolução Islâmica de 1979, a guerra Irão-Iraque, até à violência e à repressão brutal de um regime que não hesitava em prender e executar todos os seus opositores.
Foi um momento transformador e plantou em mim uma semente que levaria muitos anos a florescer, até escrever a minha própria história sobre o Líbano. Satrapi mostrou-nos algo que julgávamos impossível, a nós que éramos filhos e filhas exilados de países devastados por guerra, revolução ou tirania. Ela ensinou-nos que através da arte era possível traduzir uma realidade política complexa para o olhar ocidental, ao mesmo tempo que dava a conhecer as implicações devastadoras que essas transformações tinham junto de indivíduos e famílias.
A artista fê-lo com uma boa dose de ironia, humor e ternura. Uma criança e jovem rebelde a crescer em Teerão, filha de dissidentes políticos, que viu muitos dos familiares e amigos presos ou executados, que só queria ouvir música punk enquanto desafiava a polícia da moralidade. O seu espírito inconformado era impossível de conter perante o regime islâmico, forçando-a a abandonar o Irão.
Não era só a política que era decifrada através da sua obra, mas a própria cultura persa, enigmática para muitos. A sua novela gráfica, Bordados, aborda uma tarde entre várias gerações de mulheres iranianas, em torno do chá preparado pelos samovares que existem em todas as casas no Irão. Entre choros e risos, elas contam as suas aventuras com homens numa sociedade altamente patriarcal, e das dificuldades de casamento, revelando uma realidade íntima muito mais provocadora por trás de portas fechadas.
Nos últimos anos, ela emprestou a sua voz ao movimento pela liberdade das mulheres, na sequência da morte de Mahsa Amini, coordenando a antologia Mulher, Vida, Liberdade. Uma feroz ativista política que nunca consentiu no silêncio, que recusou a Legião de Honra em 2025, denunciando a hipocrisia do Estado francês ao recusar conceder vistos a dissidentes iranianos enquanto permitia a naturalização dos filhos iranianos de oligarcas.
A imprensa destacou muito a sua morte por “tristeza”, após a morte do seu marido em 2025. Estava inconsolável e mergulhada numa depressão profunda que a levou a desistir de viver. Houve alguma romantização daquilo que muitos consideraram ser “morrer por amor”, como se se tratasse de um romance vitoriano, mas palavras como “tristeza” disfarçam uma vida marcada nos últimos meses por doença mental e sofrimento. Quaisquer que sejam os demónios antigos que tenham assombrado Marjane desde a sua infância, não foi capaz de lhes resistir no fim.
Perdemos Satrapi demasiado cedo, mas o seu legado é intemporal. Ao longo da vida, desbravou o caminho para muitos escritores e artistas de origem não europeia que, graças a ela, ousaram escrever ou desenhar as histórias do seu país natal, sem nunca abdicar de um amor à pátria atravessado pela dor e pela alegria. Deu-nos a coragem de criar a nossa própria linguagem, partindo à descoberta da identidade e da memória coletiva dos nossos antepassados. E essa linguagem irá continuar muito depois de ela partir.