A cultura europeia desenvolveu-se nas suas grandes tradições greco-romana e judaico-cristã em diálogo interdisciplinar entre religião, filosofia e ciência, promovendo um pensamento crítico complexo, depurador das visões míticas, das crenças supersticiosas e dos interesses ideológicos. O apogeu deste desenvolvimento civilizacional deu-se com o liberalismo democrático, consolidado depois das duas grandes guerras e da superação das ditaduras coloniais, com a valorização de uma ordem social assente no respeito pelo direito internacional e pela carta universal dos direitos humanos.
No entanto, este modelo socioeconómico, que promoveu uma melhor qualidade de vida e contribuiu para a diminuição da pobreza a nível mundial, também se deixou contaminar por formas de alienação do ser humano e pela acentuação das assimetrias entre ricos e pobres. Em reação a esse “liberalismo selvagem”, que deixou de se preocupar com o bem comum, começaram a surgir teses pós-liberais messiânicas, assentes em valores morais, religiosos e comunitários que se opõem à liberdade individual da secularidade, hostis à imigração, ao cosmopolitismo e ao multiculturalismo. Partidos populistas de extrema-direita usam as redes sociais para difundir ideologias nacionalistas de teor homofóbico, misógino e racista, acentuando o discurso de ódio contra aqueles que são diferentes da maioria. Populistas de extrema-esquerda semeiam o ódio de análoga intolerância.
A diminuição de um jornalismo crítico, que ajude a formar a opinião pública nos valores humanistas da democracia, e a desvalorização generalizada das humanidades em favor das formações técnicas, contribuíram para um retrocesso no dinamismo progressivo de humanização, dando nova legitimidade aos poderes autocráticos e teocráticos que usam a religião para manipularem e controlarem o povo e negam o conhecimento científico a propósito de coisas tão sérias como a importância das vacinas ou as alterações climáticas.
Num mundo de novas forças ideológicas, que procuram calar o saber crítico e manipular as consciências em favor dos interesses de algumas elites político-económicas e socio-culturais, é necessário voltar a dar mais atenção à importância da filosofia nos planos nacionais de educação. Talvez o abandono da filosofia no ensino secundário, por parte de alguns países europeus, tenha contribuído para o retrocesso a uma mentalidade que não atende à ética do bem comum, da justiça social e da responsabilidade ecológica. O pensar crítico desenvolvido na aquisição das competências filosóficas estimula a dúvida e o questionamento, permitindo a libertação dos preconceitos e das ideologias. Mesmo para aqueles que têm filosofia na escola, parece que as alegorias da linha e da caverna da República de Platão, fundadoras da nossa matriz humanista e científica, deixaram de ser estudadas: no mundo epidérmico das redes sociais já quase ninguém sabe distinguir doxa de episteme e já poucos têm consciência de que a tendência da natureza humana ignorante é resistir à inovação e calar ou eliminar aqueles que põem em causa as crenças da maioria.
A crise financeira de 2008 é ilustrativa da separação que se foi acentuando entre a ética, a política a economia. Os conflitos da Palestina e do Irão são ilustrativos, não apenas do divórcio entre o poder político-militar e os princípios do Direito, mas também do uso ideológico e anacrónico de ideias religiosas para a justificação e legitimação da guerra. O bem social da paz só se atinge quando estiverem garantidos os bens da liberdade, da justiça, da igualdade e da solidariedade. As causas da guerra apenas podem ser eliminadas com educação ética, formação cultural e melhoria das condições de vida.
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