Ivanka Trump descreveu Sazan como uma ilha privada que ela e o marido descobriram. A frase merece ser lida devagar, porque diz quase tudo. Sazan é a maior ilha da Albânia. Pertence a um país inteiro, está dentro de um parque marinho nacional, e tem uma história documentada que recua à Antiguidade. Não foi descoberta por ninguém em 2026. Mas há um certo tipo de gente para quem as coisas só começam a existir quando lhes põem a mão em cima.
Vale a pena perceber o que é, de facto, esta ilha, porque a escolha não é inocente. Sazan fica à entrada da baía de Vlora, no ponto exato onde o Adriático encontra o Jónico. Durante mais de um século foi um dos lugares mais inacessíveis da Europa. Os italianos fascistas começaram a fortificá-la nos anos trinta. Depois veio o regime comunista de Enver Hoxha, que a transformou na base militar mais secreta do país e a encheu de betão. Falamos de cerca de três mil e seiscentos bunkers individuais, quilómetros de túneis, um hospital e um cinema subterrâneos, e três mil soldados a viver sob o medo permanente de uma invasão que nunca chegou. Uma revista americana chamou-lhe, nos anos quarenta, o Gibraltar secreto da Rússia.
Quero que se fixe esta ideia, porque é o centro de tudo. Durante um século, aquela ilha foi construída para resistir a estrangeiros. Resistiu a impérios, resistiu à guerra, resistiu à paranoia nuclear da Guerra Fria. Nenhum exército a tomou. E agora vai cair. Não por um desembarque, não por canhões, mas por um cheque. O que nenhuma potência militar conseguiu fazer, o capital faz com uma assinatura. A fortaleza que existia para manter os estrangeiros de fora vai ser entregue a estrangeiros, em nome do turismo de luxo.
E aqui chegamos à pergunta que interessa de verdade. De onde vem o dinheiro. O projeto, um resort de cerca de mil e quatrocentos milhões de euros que chega a falar em dez mil quartos de hotel e villas, está nas mãos da Affinity Partners, a empresa de Jared Kushner, genro de Donald Trump. Kushner criou a Affinity em 2021, poucos meses depois de sair da Casa Branca, sem qualquer historial como gestor de fundos. Meses depois, o fundo soberano da Arábia Saudita injetou dois mil milhões de dólares. O detalhe que não pode ficar de fora é este: o próprio comité de investimentos do fundo saudita recomendou rejeitar a proposta, por inexperiência da equipa e comissões excessivas. Quem ignorou a recomendação e aprovou o negócio foi o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman em pessoa. A estes dois mil milhões juntaram-se depois capitais do Qatar e dos Emirados. Hoje a Affinity gere perto de cinco mil milhões. O Senado e a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos abriram inquéritos por conflito de interesses. Tudo isto consta de registos do Congresso americano e foi noticiado pelo New York Times.
É este o fio que liga as pontas. O dinheiro que vai comprar uma ilha protegida no Mediterrâneo vem de monarquias do Golfo, canalizado através do genro de um presidente americano que, enquanto esteve no poder, serviu diretamente os interesses dessas mesmas monarquias. Não é preciso inventar nada. Os factos, postos em fila, já são suficientemente eloquentes.
Do lado albanês, o governo de Edi Rama concedeu ao projeto o estatuto de investidor estratégico em Dezembro de 2024, o que lhe permite contornar boa parte da burocracia normal. A procuradoria anticorrupção albanesa, a SPAK, criada em 2019 com apoio da União Europeia e dos próprios Estados Unidos, abriu entretanto um inquérito às alterações feitas em 2024 ao estatuto de proteção e à titularidade das terras, e aos fundos usados para as adquirir e revender. Convém ser rigorosa: trata-se de um inquérito, não de uma condenação, e não há prova pública de que algum governante tenha lucrado pessoalmente. Mas a Albânia pontua trinta e nove em cem no índice de perceção de corrupção da Transparency International, e a pergunta sobre por que razão um país inteiro se desfaz da sua costa mais protegida para agradar a uma família americana não é uma pergunta paranoica. É uma pergunta legítima.
Depois há o que se está a perder, que não volta. A zona, que inclui a ilha e a paisagem costeira de Vjosa-Narta, é um dos pontos mais sensíveis do Mediterrâneo. Está num corredor migratório de aves entre África e a Europa, abriga mais de setenta espécies ameaçadas, e é um dos últimos refúgios da foca-monge-do-mediterrâneo, um dos mamíferos marinhos mais ameaçados do mundo, além de zona de nidificação da tartaruga-careta. Segundo a BirdLife International e a sua congénere albanesa, maquinaria pesada começou a limpar o núcleo da área protegida ainda em Abril de 2026, sem licenças, sem estudo de impacto ambiental concluído e sem qualquer consulta pública. Os ambientalistas falam na pior destruição alguma vez registada numa área protegida albanesa. Parte do dano é já irreversível.
E é por isso que as pessoas estão na rua. Em maio, apareceu arame farpado a bloquear o acesso à praia de Zvërnec. A 30 de Maio, um vídeo mostrou seguranças privados a agredir e a arrastar um manifestante por uma falésia, enquanto a polícia assistia sem intervir. A reação foi tal que o governo acabou por revogar as licenças de duas empresas de segurança, deter um segurança, afastar um chefe de polícia local. Em troca, acusou cerca de quinze manifestantes. Nos dias seguintes, milhares de pessoas encheram as ruas de Tirana com um lema simples e exato: a Albânia não está à venda. E um cartaz mais direto ainda, dirigido a quem dizia ter descoberto a ilha: Ivanka, vai para casa.
Há quem ache que isto é uma fatalidade, que contra este tipo de dinheiro não há nada a fazer. Não é verdade. Em 2025, a mesma Affinity Partners abandonou um projecto semelhante em Belgrado, na Sérvia, depois de oposição pública e de processos judiciais sobre a remoção de protecções patrimoniais. Os albaneses sabem-no, e é por isso que insistem. A pressão funciona. A história não está escrita.
O que esta ilha mostra, no fundo, é uma forma de poder que já não precisa de exércitos. Os ultra-ricos da nossa época não conquistam territórios, compram-nos, com a colaboração de governos pequenos que confundem o investimento com a soberania e que entregam aquilo que era de todos a quem tem o telefone certo. Aquilo a que chamam descobrir uma ilha é, na verdade, apropriar-se de um lugar que já tinha dono, que era um país inteiro, e que durante um século se defendeu precisamente disto.
Sazan não foi descoberta. Estava lá. O que é novo não é a ilha. É a ideia, cada vez mais natural para esta gente, de que tudo tem um preço, até uma fortaleza que resistiu a um século de guerras, desde que o comprador esteja suficientemente perto do poder. A ilha aguentou impérios. Falta saber se aguenta um genro.
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