Durante décadas, quando se falava de tecnologia em Portugal, o foco recaía quase sempre sobre Lisboa. Hoje, felizmente, a realidade é diferente. O Porto e a região Norte conseguiram afirmar-se como verdadeiros polos tecnológicos, capazes de atrair empresas internacionais, talento qualificado, centros de engenharia e investimento.
Esse crescimento não aconteceu por acaso – foi construído pelas universidades, empresas, associações, startups e multinacionais que acreditaram na região e, acima de tudo, por pessoas que decidiram fazer carreira aqui.
Mas há um tema impossível de ignorar: a mobilidade.
Não falo apenas de trânsito, mas da capacidade que uma região tem ou não de continuar a crescer de forma sustentável.
Hoje, muitos profissionais da área tecnológica já não conseguem viver no centro do Porto. O aumento do custo da habitação empurrou milhares de pessoas para zonas mais periféricas e cidades satélite como Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Braga, Guimarães ou Santa Maria da Feira. O problema é que, apesar desta nova realidade, grande parte da infraestrutura de mobilidade continua desenhada para um Norte de há 20 anos.
Um exemplo muito concreto é a Linha B do Metro do Porto, que liga a Póvoa de Varzim e Vila do Conde ao Porto. Depois das 19h40, deixam de existir serviços expresso e as frequências passam a ser de 30 em 30 minutos, num trajeto que demora cerca de uma hora até ao centro do Porto.
Para quem vive nestas zonas e trabalha no ecossistema empresarial do Porto, isto deixou de ser um detalhe operacional. Passou a ser parte do quotidiano.
Falamos de profissionais que muitas vezes saem do escritório ao final do dia e enfrentam deslocações longas, menos frequentes e com menor capacidade, precisamente num momento em que o Norte continua a crescer, a atrair empresas e a descentralizar talento.
Esta realidade repete-se em vários pontos da região: mais trânsito,maior dependência do automóvel, mais tempo perdido em deslocações e menos previsibilidade.
Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. Segundo dados recentes da INRIX, os condutores na cidade do Porto perderam, em média, 36 horas no trânsito durante 2024, representando um aumento de 16% face ao ano anterior. O crescimento económico da região está a acontecer mais rapidamente do que a adaptação da sua mobilidade.
Ao mesmo tempo, também é importante reconhecer o que tem sido bem feito. A reorganização da zona de Campanhã, aproximando metro, comboios e autocarros, facilitou muito a vida de milhares de pessoas. A expansão do metro mostra visão de futuro. Existe hoje uma consciência muito maior sobre a importância da mobilidade para o desenvolvimento da região.
Mas talvez tenha chegado o momento de olharmos para este tema de forma diferente.
A mobilidade no Norte deixou de ser apenas um assunto urbano. Tornou-se um tema de competitividade regional. Porque quando uma região cresce, mas as pessoas perdem cada vez mais tempo para se deslocarem, alguma coisa está a falhar.
Isto é particularmente relevante na indústria da tecnologia, onde o talento é altamente móvel e onde a qualidade de vida pesa cada vez mais nas decisões profissionais.
O Norte de Portugal tem hoje empresas globais, centros tecnológicos, hubs de inovação e uma capacidade enorme de continuar a crescer. Mas esse crescimento traz novas exigências. Não basta atrair empresas. É preciso garantir que as pessoas conseguem viver, deslocar-se e trabalhar com qualidade.
Porque o futuro desta região não depende apenas das empresas que conseguimos trazer. Depende também da forma como conseguimos ligar pessoas, cidades e oportunidades.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.