Um evento, numa cidade, vila ou aldeia, pode esgotar hotéis, encher restaurantes, esvaziar os mercados e, ainda assim, não deixar um verdadeiro impacto na economia local. Parece contraditório, no entanto acontece mais vezes do que imaginamos. O que nos leva a questionar quantos destes eventos criam, de facto, valor para a economia local de uma região?
Estamos habituados a medir o seu sucesso pelos números mais visíveis. Quantas pessoas estiveram presentes, quantos bilhetes foram vendidos, qual foi a taxa de ocupação. Estes indicadores são importantes, mas dizem pouco sobre o que realmente interessa: a capacidade deste movimento de criar valor duradouro para quem vive e trabalha no território. É aqui que encontramos a diferença entre um evento de passagem e um evento que deixa a sua marca.
Na prática, tudo se resume a como o investimento é distribuído. Quando um evento recorre a fornecedores locais, envolve serviços da região e integra o comércio de proximidade, o efeito económico multiplica-se. O mesmo orçamento pode ter impactos completamente diferentes, dependendo das escolhas que são feitas.
No nosso caso, esta realidade tornou-se evidente ao longo do tempo. Percebemos rapidamente que não é o tamanho do acontecimento que estamos a organizar que define o seu impacto, mas sim as decisões que o sustentam. Quem envolvemos, onde investimos e como distribuímos valor.
Outro fator determinante é a continuidade. Um evento que ocorre de forma consistente passa a fazer parte da dinâmica local. Os negócios prepararam-se com antecedência, ajustam a sua oferta e olham para esse pico como uma oportunidade de crescimento. Cria-se um ciclo de confiança que reforça o impacto ano após ano.
Mas há um elemento que, muitas vezes, é subestimado e que faz toda a diferença, sobretudo em territórios de menor dimensão. Falo de comunidade e do seu sentido de pertença.
Quando as pessoas se reconhecem no evento e o integram na sua própria dinâmica, tudo muda. Para a nossa associação, por exemplo, esse envolvimento é visível na forma como diferentes gerações e até localidades vizinhas se mobilizam naturalmente para contribuir. Esse esforço coletivo não só garante capacidade operacional, como cria uma experiência genuína para quem visita. E essa autenticidade é um ativo económico, mesmo que nem sempre seja contabilizada.
Contudo, existem limitações naturais nestes territórios de menor densidade populacional. O crescimento em número de visitantes poderá atingir inevitavelmente um limite. Nesse momento, o volume deixa de ser o principal foco e torna-se obrigatório crescer em qualidade e em impacto.
Isto significa prolongar a permanência dos visitantes na região, diversificar os pontos de consumo e garantir que mais agentes locais beneficiam diretamente da presença do evento. O essencial é garantir que o impacto não termina quanto este acaba, especialmente quando organizamos momentos com impacto a nível internacional.
Mas nenhum destes efeitos acontece de forma isolada. A articulação com entidades locais e regionais tem também um papel decisivo. Quando existe alinhamento, tudo funciona com maior eficiência e o impacto ganha escala. Quando esse alinhamento falha, perdem-se oportunidades que dificilmente se recuperam.
A verdade é que nem todos os eventos com grande dimensão geram impacto relevante. Em muitos casos, são precisamente os eventos mais enraizados no território que criam valor real. Porque o impacto não se mede apenas pelo número de pessoas que chegam. Mede-se pelo valor que nos deixa.
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