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Este verão, pela Europa fora, um número inimaginável de “mosquitos tigre”, cada um mais pequeno do que a unha de um dedo humano, pousará silenciosamente sobre cidadãos desprevenidos e alimentar-se-á do seu sangue. Uma vez que os mosquitos tigre podem transportar uma multiplicidade de vírus diferentes na sua saliva, alguns desses cidadãos poderão ficar doentes. Um cenário como este teria sido impossível há 50 anos, mas tornou-se possível pela crescente globalização, urbanização e alterações climáticas.
Os mosquitos tigre pertencem à espécie Aedes albopictus, e recebem a sua alcunha dados os padrões de pontos e riscas pretos e brancos semelhantes aos de um tigre que cobrem a maior parte do seu corpo. Para se reproduzir, estes mosquitos necessitam de acesso a um pequeno volume de água parada, onde encontram condições estáveis para se desenvolver desde o ovo até à forma adulta voadora que nos é familiar. Um único pneu abandonado ou balde de plástico pode acumular água da chuva suficiente para sustentar uma população de mosquitos tigre durante um verão inteiro. Embora a dieta destes mosquitos seja tipicamente baseada em néctar de plantas, alguns nutrientes essenciais que são necessários para o desenvolvimento dos ovos (como o ferro) não se obtêm facilmente a partir das plantas, razão pela qual os mosquitos fêmea necessitam de refeições de sangue. Além disso, o metabolismo dos mosquitos (ou seja, a capacidade de converter nutrientes em energia) é extremamente sensível a temperaturas frias, o que explica por que razão os mosquitos são tipicamente mais bem-sucedidos e consequentemente mais abundantes no verão.
Desde tempos imemoriais que o mosquito tigre esteve confinado a regiões tropicais do planeta, como o Sudeste Asiático. Hoje, porém, o mosquito tigre prospera em locais do planeta historicamente associados a climas temperados, como a América do Norte e a Europa. Inicialmente estabelecido em regiões mediterrânicas com climas temperados mais quentes, ao longo das últimas três décadas o mosquito tigre tem vindo a deslocar-se para norte na Europa. Encontra-se agora estabelecido em todas as latitudes centro-meridionais do continente, especificamente em vários centros urbanos de Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Alemanha, Áustria, Ucrânia, Países Baixos, Suíça, Albânia, Croácia, entre outros.
O mosquito tigre chegou às nossas cidades simplesmente como dano lateral da globalização. Entrou nos portos das nossas cidades sem ser detetado em carregamentos de aviões e barcos provenientes de regiões tropicais do planeta. Ficou nas cidades porque adora as condições que elas oferecem. Por exemplo, em comparação com outras regiões de um país, as cidades são artificialmente mais quentes e, portanto, mais compatíveis com o metabolismo do mosquito. As cidades oferecem também uma abundância artificial de recipientes com água parada para reprodução, como esgotos, superfícies de betão, contentores de plástico descartados, etc. As cidades são ainda onde encontramos as maiores densidades populacionais de seres humanos, tornando-nos um recurso abundante e sempre disponível de refeições de sangue. Por fim, a Europa é o continente onde as alterações climáticas estão a atuar com maior intensidade, o que não só está a tornar as cidades mais quentes muito rapidamente, como também está a aumentar a disponibilidade de água parada devido a padrões de chuva cada vez mais caóticos e a inundações locais.
Ao longo dos últimos 50 anos, o mosquito tigre não mudou. Foi o ambiente local que mudou.
As nossas ações no planeta dissolveram as barreiras ambientais que outrora mantinham o mosquito tigre nos trópicos e, como consequência, dissolveram-nas silenciosamente também para os vírus que o mosquito pode transportar. Estes passageiros microscópicos indesejados incluem por exemplo os vírus da dengue, chikungunya e Zika, que já demonstraram atividade alarmante em Espanha, França, Croácia, Itália e na Ilha da Madeira. Nos países tropicais, estes passageiros indesejados são “endémicos”, o que significa que existem nativamente ao longo de todo o ano e são responsáveis por grandes surtos com encargos significativos para a saúde e para a economia locais. Na Europa, são por agora “epidémicos”, o que significa que têm de ser reintroduzidos todos os verões através de viajantes humanos que visitam os trópicos, porque as condições invernais rigorosas reduzem tanto o número de mosquitos tigre que os vírus desaparecem. No entanto, cada pequeno aumento de temperatura e de urbanização nas nossas cidades proporcionará invernos ligeiramente mais compatíveis para a sobrevivência do mosquito tigre e, consequentemente, convites ligeiramente mais apelativos para que os passageiros indesejados permaneçam durante o inverno. Lentamente, o que já foi uma preocupação de saúde associada a viagens para os trópicos tornar-se-á uma preocupação dentro do bairro onde vivemos. Com efeito, estes passageiros indesejados estão a trabalhar o seu caminho de “epidémicos” para “endémicos” na Europa. É apenas uma questão de tempo.
Esta história faz parte de um padrão planetário mais amplo e acelerado aplicável a muitas formas de vida que os cientistas têm vindo a documentar há décadas. Neste Dia Mundial do Ambiente 2026, devemos reconhecer o que a ciência nos tem dito há algum tempo: a saúde do nosso planeta é também a nossa saúde.
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