“North and South”, da escritora britânica Elizabeth Gaskell, é hoje considerado um dos primeiros romances da era da Revolução industrial a descrever em detalhe uma greve de trabalhadores numa fábrica na zona de Manchester (No livro, surge ficcionalizada como Milton). Foi publicado em 1855 e é uma das minhas obras favoritas pelo fascinante retrato social e psicológico de uma sociedade profundamente afetada por uma tecnologia sem precedentes e que ainda está a aprender a lidar com as consequências brutais. Descreve em detalhe as tensões entre as classes sociais e as primeiras negociações entre os patrões e os trabalhadores, a trabalharem em condições desumanas nas fábricas.
Mais de 170 anos após a publicação desse romance literário, muito mudou e nada mudou. As greves continuam a ser um instrumento essencial de reivindicação de direitos laborais, e se é verdade que o mundo do trabalho é hoje tecnologicamente distante do mundo dos operários nas fábricas do séc. XIX, a situação terá mudado assim tanto? A realidade atual é muito mais complexa do que na era industrial, mas subsistem desequilíbrios de poder entre quem define as condições económicas e quem depende do trabalho para viver.
Quando esta crónica for lida, já terá decorrido a greve geral de 3 de junho, na sequência do pacote laboral apresentado por Luís Montenegro, que tem gerado forte contestação social, a lembrar o ambiente vivido durante o período da Troika. O Governo privilegia uma visão liberal e pró-mercado e coloca-se sobretudo do lado dos empregadores. É um governo que não procura soluções eficazes para o agravar das desigualdades em que uns continuam a ser muito ricos enquanto outros empobrecem cada vez mais.
E são os sindicatos a servir de intermediários, numa realidade que se transforma com uma velocidade vertiginosa. Não podemos ignorar as fragilidades do sindicalismo atual. Muitos sindicatos continuam a revelar limitações em atrair trabalhadores mais jovens, em representar novas formas de trabalho e em adaptar-se a uma economia cada vez mais fragmentada. Como convencer as pessoas da importância de manter o sindicalismo, de modo a não se tornar uma relíquia do passado? Como torná-lo mais dinâmico e apelativo para pessoas de todas as idades e estratos sociais, independentemente da sua área de atividade?
Se não queremos ser testemunhas de um futuro com sérias restrições à possibilidade de greve, temos de alargar a visão do sindicalismo muito para lá da visão construída no séc. XX com estruturas rígidas, burocráticas, por vezes capturadas por lógicas partidárias, e que privilegiam modelos de trabalho com trabalhadores fixos, contratos estáveis e empregadores fáceis de identificar. Como representar trabalhadores menos dependentes de estruturas tradicionais? Numa época em que as instituições políticas tradicionais estão cada vez mais fragilizadas, precisamos de verdadeiro poder coletivo, de um sindicalismo inclusivo e abrangente, capaz de se constituir como agente de uma profunda mudança.
Os sindicatos do futuro não poderão atuar sozinhos, mas em conjunto com a sociedade civil e com movimentos sociais que também combatem, à sua forma, a concentração de poder económico, mesmo que existam divergências legítimas. Movimentos em defesa do clima, do direito à habitação, dos direitos das mulheres, por mais igualdade e justiça social.
Temas como a baixa produtividade e excessiva dependência do turismo, o teletrabalho, a semana de quatro dias, o direito a desligar, a automação são algumas das grandes batalhas que o futuro não pode ignorar. A evolução estonteante da IA já faz parte das negociações e irá tomar cada vez mais espaço. Quem irá decidir o que se automatiza e qual será o custo humano?
Só se o permitirmos é que as greves se tornam uma relíquia do passado. Hoje, tal como em 1855, a questão central foi sempre sobre poder e sobre o direito a uma vida digna que não se esgota no trabalho. Neste momento, mais do que nunca, quando o atual modelo de trabalho está debaixo de fogo, é quando precisamos de um sindicalismo com uma visão humanista e progressista.
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