Os meus filhos, nas suas infâncias felizardas, celebram ser criança sentindo-se especiais, o que lhes é garantido e validado por uma família atenta, uma escola cuidadora, um ambiente favorecedor do seu florescimento e desenvolvimento.
Eu celebro o futuro e a esperança num mundo melhor, e exercito a fé que esse desígnio é possível, com o contributo daqueles que, ainda em crescimento, trarão visões criativas e novas possibilidades a um mundo sedento de reinvenção.
Mas incomoda-me a pergunta: o que celebram tantas crianças com vidas duras, povoadas por adversidades, que tentamos proteger, tantas vezes falhando? Poderíamos ajudar a celebrar infâncias mais plenas? Poderíamos, como sociedade, ser mais comunidade de cuidado para as mais de 6000 crianças que estão temporariamente afastadas das suas famílias por aí terem vivido circunstâncias de perigo?
O acolhimento familiar em Portugal é ainda muito diminuto: só 6% das crianças são acolhidas em famílias, permanecendo uma imensa maioria em instituições. Isto acontece em contraste com o panorama na restante Europa, e em clivagem com o que a evidência científica nos diz ser preferível para o desenvolvimento. A infância precisa de vínculos seguros, que se constroem no quotidiano de uma vida familiar previsível, e na relação com adultos específicos, que sejam colo e chão. Por isso os estudos apontam para a mais-valia do acolhimento familiar para a maioria das crianças.
Ser família de acolhimento nasce da convicção de que cada criança tem o direito de crescer numa família onde se sinta amada e segura; e concretiza-se no assegurar um dia-a-dia estável, preenchido de afeto e experiências enriquecedoras, que fazem a diferença na vida destas crianças. As famílias que acolhem não o fazem por serem ingénuas: elas sabem que o acolhimento trará desafios, mas escolhem confiar, em si e no apoio profissional, para lidar com o que vá surgindo (afinal o desafio faz parte de toda e qualquer vida humana, de cada família…).
Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, ser família de acolhimento não significa ser uma superfamília. Todas as famílias são “super” quando cuidam dos seus, quando se ajustam e se reinventam para responder ao que a vida traz de inesperado e criativo. As famílias de acolhimento são, simplesmente, famílias como tantas outras: têm forças e fragilidades, cometem erros, aprendem com eles e procuram dar o seu melhor — tanto aos seus próprios filhos como às crianças que acolhem. São famílias que também sentem medos e angústias, especialmente perante o momento da despedida — esse grande paradoxo entre alegrar com o criar vínculo e também com o deixar ir. São famílias que, com o tempo, vão entendendo que o fim do acolhimento não representa uma separação absoluta, que o presente que se oferece fica para sempre e que pode ter um impacto enorme a transformar futuros!
São precisas, em Portugal, mais famílias de acolhimento! É preciso podermos celebrar, neste dia, mais infâncias felizes e seguras! Conseguimos abrir as portas da nossa família?
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