Não digo que já correu muita tinta porque nos dias que correm é rara a tinta que corre, mas já muitos bytes de informação ficaram alojados em centros de dados por esse mundo fora à conta de artigos escritos sobre Inteligência Artificial (IA). Alguns deles, suponho, escritos pela própria.
Como muita gente se preocupa com os níveis de desemprego que podem disparar graças a estes avanços tecnológicos, perguntei a um modelo de IA o que achava disso:
“A Inteligência Artificial pode, sim, causar desemprego elevado em alguns setores, sobretudo onde as tarefas são rotineiras, previsíveis e fáceis de automatizar. Mas o efeito mais provável não é uma eliminação uniforme de empregos: é uma reconfiguração do trabalho, com perdas em certas funções e ganhos noutras.”
Pronto, assunto resolvido, não é. Usou um estudo da ONU e outro do FMI e cá vai disto: não há motivos para alarme, isto reconfigura-se.
É verdade que de cada vez que há um grande e repentino avanço tecnológico, os temores que nos invadem são semelhantes e giram quase sempre em torno do nosso medo de sermos substituídos pelas máquinas.
Foi assim com o início da Revolução Industrial, foi assim com o aparecimento dos computadores e é assim com a Inteligência Artificial. Trata-se uma entidade mais ou menos misteriosa que pouca gente sabe muito bem no que consiste para além de uma aplicação no telemóvel que nos tira dúvidas, e sabemos em abstrato que se trata de uma tecnologia que pode facilmente e de forma barata fazer o trabalho de milhões de humanos.
A angústia coletiva é justificável. Mas ela esconde uma lógica que nos passa despercebida que tem menos a ver com os impactos da tecnologia e mais com a forma como organizamos o trabalho.
A pergunta que quero colocar pode chocar e, se for pensada dentro da atual estrutura económica, é normal que assim seja. Mas, afinal de contas, seria assim tão mau que a IA nos substituísse no trabalho?
Se nada mais mudar, a resposta é óbvia: sim. Seria um autêntico desastre, porque esta coisa da reconfiguração é fácil de dizer mas, na prática, implica haver gente que cai no desemprego e não tem capacidade para de lá sair.
Isto é potencialmente ainda mais problemático num contexto marcado por dois aspetos. Por um lado, o Estado-Previdência vê-se atacado quer por forças políticas que veem os desempregados como parasitas, quer por forças políticas que os veem como boa oportunidade para baixar salários. Por outro lado, se antes família, vizinhos e amigos podiam constituir uma rede de segurança que poderia ser ativada em tempos de aflição (o chamado Estado Social informal, em tempos muito presente nos países do Sul da Europa), hoje essas redes encontram-se severamente desagregadas.
Mas pensemos nisto a partir de outro ângulo. Imaginando que o dinheiro não seria problema, qual seria o drama de não ter trabalho?
Imaginemos um sítio onde o trabalho não está diretamente ligado a uma remuneração: o lar. Em casa das famílias há um conjunto de tarefas que é imperioso fazer, umas mais fáceis, outras mais difíceis, umas mais especializadas, outras menos, umas mais agradáveis, outras mais penosas. O desempenho dessas tarefas não resulta em remuneração, e no entanto, precisam de ser feitas. O bem-estar coletivo daquela unidade familiar depende disso.
É verdade que há configurações familiares em que o trabalho é distribuído de forma mais justa do que noutras. Resultam das dinâmicas de poder dentro da família e do que os seus elementos entendem que é mais justo, mas de uma forma ou de outra, as tarefas são distribuídas.
Se a família tiver recursos financeiros suficientes, pode decidir contratar uma pessoa para fazer uma parte desse trabalho. Se isso acontecer, os membros da família que se encontram “desempregados” deste trabalho doméstico não o sentem como algo negativo. Se me dissessem que, através de um mecanismo qualquer, nunca mais teria de limpar uma sanita na minha vida, não o sentiria como se estivesse a perder o emprego.
Poder-me-ão dizer que haverá pessoas que se se virem repentinamente libertas das tarefas domésticas que recaem sobre elas, senti-lo-ão como uma perda de identidade, como se lhes fosse retirado um aspeto fundamental do que elas são. O mesmo acontece, aliás, quando as pessoas perdem o emprego. Mas esse é um fenómeno que resulta de situações em que o trabalho ocupa de tal forma a vida das pessoas que não lhes resta mais nada que lhes dê sentido de identidade.
O trabalho dá às pessoas frequentemente um sentido de propósito, mas só em sociedades centradas no trabalho é que não resta tempo nem disponibilidade para explorar outras formas de identidade e de pertença, como a cultura, a socialização, o associativismo, a família, etc.
Quando falamos de trabalho não doméstico, a lógica não tem de ser necessariamente diferente. Se encararmos o trabalho como aquilo que pode ser (uma forma de produzir bens e serviços para o bem da comunidade), haver uma tecnologia que nos substitui no nosso trabalho pode ser uma coisa boa.
O problema é que o trabalho não é isso. A forma como novos desejos são manufaturados para alimentar uma máquina de produção que depende do crescimento eterno, da sobre-exploração dos recursos naturais e de seres humanos que vivam para ser trabalhadores-consumidores ilustram-no bem. Isto acontece porque não trabalhamos para satisfazer necessidades sociais, mas para gerar lucro e ganhar um salário. Vendemos a nossa força de trabalho para produzir o que muitas vezes, aliás, não conseguimos consumir.
Se o trabalho for uma forma de produzir bens e serviços socialmente necessários, que mal tem que esses bens e serviços sejam produzidos por máquinas? Se isso quiser dizer que os lucros de alguns vão aumentar à custa da miséria de muitos, diria que tem todo o mal. Mas se distribuirmos justamente os recursos e aproveitarmos a tecnologia para nos livrarmos (pelo menos parcialmente) do trabalho e nos dedicarmos a todas as outras coisas que dão valor à nossa vida, não só isso não será um problema, como poderá ser uma ferramenta essencial para concretizarmos o nosso potencial como seres humanos.
Sei que é um grande, enorme, “se”. Ele depende de imaginarmos outro mundo, o que talvez seja a coisa mais difícil de se fazer. Mas se não aproveitamos as ferramentas deste mundo para construirmos outro que seja melhor, andamos aqui a fazer o quê?
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