São indiscutíveis as vantagens da realização de ensaios clínicos em Portugal. Vantagens para os doentes, que acedem à inovação terapêutica numa fase em que a sua disponibilidade é ainda limitada; para os profissionais, que contactam com novas tecnologias e conhecimento de vanguarda, contribuindo para o avanço científico; e para o próprio País, que beneficia não apenas do conhecimento gerado, mas também de ganhos económicos, da criação de emprego qualificado e de uma maior eficiência e qualidade dos cuidados prestados. A investigação clínica contribui, assim, para a sustentabilidade do sistema de saúde e reforça a competitividade nacional. Por cá, ainda que estas vantagens sejam bem reconhecidas, nem sempre têm sido suficientes para tornar Portugal mais atrativo nesta matéria e os motivos são também conhecidos: falta de financiamento, escassez de recursos humanos, excesso de burocracia e poucas políticas de incentivo eficazes.
Apesar disto, temos vindo a assistir, nos últimos anos, a um aumento do número de ensaios clínicos realizados em Portugal. Os dados mais recentes, partilhados pelo Infarmed, confirmam esta tendência: em 2025, foram submetidos 209 ensaios clínicos, pouco mais do que no ano anterior, é certo, mas ainda assim uma subida, mantendo a trajetória de crescimento dos anos anteriores. Ao mesmo tempo, verificou-se um investimento na criação de infraestruturas e equipas de investigação capacitadas para a realização de ensaios clínicos de fase I. Pelas suas especificidades, estes Centros permitem a atração de ensaios clínicos em fases mais precoces do desenvolvimento, bem como a especialização de profissionais de saúde, reforçando a capacidade científica dos Centros e o compromisso nacional com a Investigação Clínica.
A margem de manobra para crescer é, contudo, grande. A questão que se coloca é: como pode Portugal tornar-se mais atrativo para os ensaios clínicos? E a resposta, que tem tanto de complexa como de essencial, inclui vários vetores. Comecemos pelos tempos de aprovação, que os dados disponíveis confirmam que têm também vindo a melhorar, alinhando-se com os restantes países abrangidos pelo regulamento europeu. Assistiu-se, de facto, a uma redução dos tempos de avaliação, que tem sido consistente desde a entrada em vigor do Regulamento Europeu dos Ensaios Clínicos (a 31 de janeiro de 2022): segundo o Infarmed, o tempo médio passou de 71 dias em 2023 para 45 dias em 2024, atingindo 32 dias em 2025 no âmbito do projeto‑piloto de avaliação acelerada.
No entanto, a fase seguinte, de ativação dos centros e início efetivo do recrutamento, continua a representar um desafio, pelo que há um grande espaço para acelerar este processo.
Quando se trata dos ensaios clínicos, a previsibilidade é um fator crítico, sobretudo nos estudos de âmbito internacional. É importante ter em conta que não basta aprovar os ensaios, é preciso que a execução seja consistente desde a submissão até ao fecho do estudo, o que irá servir para reforçar a confiança no ecossistema nacional.
Neste contexto, os centros de investigação clínica nacionais assumem o papel principal, até porque a capacitação destes centros é considerada essencial para tornar Portugal mais competitivo neste campo. É preciso que haja uma formação estruturada para as equipas de investigação e um reforço das competências das mesmas, sejam estas de gestão, regulamentação, qualidade, o que é determinante para acelerar processos e melhorar os resultados.
E é preciso também dar a estas equipas condições para poderem realizar o seu trabalho, o que passa pela alocação de mais recursos humanos dedicados à investigação, que é visto como um dos principais impedimentos à seleção de Portugal para novos ensaios clínicos, e maior disponibilidade de tempo para os profissionais de saúde se envolverem em atividades de investigação. Os casos de médicos, enfermeiros e farmacêuticos que acumulam funções assistenciais com tarefas de investigação são frequentes, o que reduz a disponibilidade para recrutamento, acompanhamento de doentes e gestão de estudos, e contribui para atrasos e menor atratividade dos centros.
O advento das novas tecnologias, como a Inteligência Artificial, abre perspetivas a avanços enormes nesta área, mas o seu uso eficaz exige dados fiáveis, completos e interoperáveis. Apesar de Portugal estar bem posicionado no que diz respeito à digitalização do sistema de saúde, existem fragilidades na padronização e interoperabilidade de dados. E sem dados estruturados e atualizados, as potencialidades oferecidas pela IA não podem ser aproveitadas.
A questão do recrutamento pesa também nestas contas. A necessidade de uma rede nacional de referenciação para ensaios clínicos está já reconhecida, tendo mesmo sido submetido a discussão pública um documento sobre referenciação formal de potenciais participantes, com o objetivo precisamente de criar um modelo nacional que facilite o encaminhamento de doentes para centros com estudos ativos. Um passo importante, na medida em que vai promover a equidade no acesso aos ensaios clínicos, permitindo que qualquer pessoa possa ser avaliada, independentemente da sua localização ou da unidade de saúde em que se encontre em tratamento, o que promove a transparência, a qualidade assistencial e a proteção dos participantes. Ao mesmo tempo, vai harmonizar os processos que permitem identificar potenciais participantes, facilitando ainda a comunicação entre unidades de saúde. Este modelo tem o potencial de reduzir as desigualdades no acesso e aumentar o recrutamento.
Por tudo isto, podemos dizer que o caminho que Portugal tem percorrido na investigação clínica é encorajador, mas está longe de estar concluído. Os progressos apontam na direção certa, mas para que o País se possa afirmar como um destino competitivo e de referência para os ensaios clínicos, é necessária uma abordagem sistémica e sustentada e perceber que a investigação clínica, além de uma oportunidade para os doentes acederem à inovação, configura ainda uma alavanca estratégica para o desenvolvimento científico, económico e social do País.
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