Escrevo este texto enquanto acompanho os resultados das eleições locais no Reino Unido e, particularmente, em Birmingham. É a maior autoridade local da Europa e, por motivos profissionais, tenho vindo a acompanhar de muito perto a vida desta cidade.
Há mais de um ano, em janeiro de 2025, os trabalhadores do lixo da cidade entraram numa greve total que se mantém ainda hoje, 16 meses depois. Com as contas da cidade numa miséria, o governo de Keir Starmer enviou um grupo de burocratas para tomar conta da coisa e fazer o que fosse preciso para voltar às “contas certas”. Para um português, é difícil não sentir um certo déjà vu.
Como qualquer burocrata que se preze, uma das medidas que quiseram implementar foi a reestruturação das carreiras destes trabalhadores num processo que, para alguns, significava a perda de 8.000 libras (9.250 euros) por ano. Uma brutalidade.
É de notar a cobardia particularmente conspícua dos políticos do Partido Trabalhista (Labour) que, dominando os governos nacional e o local de Birmingham, se esconderam por detrás destes comissários burocratas para implementar medidas de austeridade e prejudicar os trabalhadores.
A Unite the Union, sindicato que representa estes trabalhadores (e ao qual, por questões de transparência, tenho ligações), começou um processo de luta que entrou numa escalada alucinante. Apesar das ligações deste sindicato ao Labour (são provavelmente o maior financiador do partido), o processo de luta não hesitou em responsabilizar o partido pela erosão dos direitos dos trabalhadores.
Do lado do Labour, a luta pela dignidade dos trabalhadores da recolha e tratamento d lixo foi recebida com animosidade. Puseram o sindicato em tribunal argumentando que os piquetes de greve quebravam a lei e, em resposta, o sindicato disse que se tivesse de pagar alguma multa, esse dinheiro seria retirado diretamente da contribuição anual que iria para o Labour.
Durante 15 meses, numa terra que vota tipicamente à Esquerda, governo local e governo central, ambos de um partido que se apresenta como de Esquerda, decidiram apostar na humilhação dos trabalhadores.
O apoio da população aos grevistas era óbvio. Fora os malucos do costume que gostavam de ver todos os delegados sindicais na cruz, toda a gente percebe o significado de perder 8.000 libras de ordenado. Mas a resposta do Labour foi sempre a de apelar à “responsabilidade orçamental” como desculpa para empobrecer os trabalhadores.
Apostaram, parece-me claro, na ausência de alternativa. Os conservadores são uma força política residual em Birmingham por causa da justa má fama que ganharam pela implementação de políticas de austeridade; os Liberal-Democratas têm peso em alguns bairros de classe média e pouco mais; os Verdes são uma alternativa pouco viável ao Labour; os independentes estão alinhados com o novo partido de Corbyn e vêm de um espaço político cuja implosão faz lembrar um sketch dos Monty Python.
Restava o Reform UK, o partido de extrema-Direita liderado por Nigel Farage, um lunático a quem nenhuma polémica parece pegar. O estado de absoluto caos e falta de preparação das estruturas locais que se viam aflitas por encontrar candidatos suficientes parecia ser tudo o que o Labour queria ouvir para dormir descansado.
O problema é que houve uma pequena surpresa: o Reform UK comprometeu-se a satisfazer as exigências dos trabalhadores da recolha e tratamento do lixo caso ganhasse controlo da autoridade local.
Não creio que alguém entenda isto como uma “esquerdização” do partido de extrema-direita. Não passa de uma constatação simples: as pessoas querem este assunto resolvido e nós vamo-nos apresentar como quem o vai resolver.
A liderança local do Labour, num golpe de asa a transbordar de chico-espertice, resolveu, à última da hora, aceitar chegar a acordo com os trabalhadores. No entanto, e de forma calculada, resolveu fazê-lo tão perto das eleições que já não podia assinar qualquer acordo, prometendo fazê-lo caso ganhasse. Prometia resolver o problema que recusou resolver nos últimos 15 meses.
Também ninguém entendeu isto como uma “esquerdização” do Labour. As pessoas não são parvas, viram o truque e perguntaram-se: “então porque é que não resolveram já isto antes?”
Resultado? À hora que escrevo estas palavras, 95 dos 101 dos lugares em disputa estão decididos. O Reform UK, que não tinha nenhum assento, conquistou 21 e tem mais do que o Labour, que, com 18, já perdeu 41 e arrisca-se a perder mais.
A derrota estrondosa do Labour parece inevitável. Mesmo que ganhasse os restantes lugares, o que é improvável, teria perdido a maioria absoluta e teria escancarado a porta à entrada do partido de Nigel Farage.
Até podia ser difícil de perceber porque é que uma terra que tipicamente vota pelos interesses dos trabalhadores terá votado num partido destes. Mas, bem vistas as coisas, não é assim tão difícil. A Esquerda abandonou os trabalhadores. Não se queixem agora de que eles abandonaram a Esquerda.
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