Há figuras nos clubes desportivos que nunca aparecem nas fotografias das vitórias, não dão entrevistas no final dos jogos, não recebem medalhas nem aplausos das bancadas. Mas sem elas, quase nada funcionaria. Uma dessas figuras é o velho “roupeiro”, hoje designado técnico de equipamentos.
O nome mudou. A sua essência não.
Quem conhece verdadeiramente a realidade do desporto sabe bem do que falo. O “roupeiro” não trata apenas de camisolas. Lava e seca roupa, organiza equipamentos, prepara bolas, arranja chuteiras, limpa balneários, guarda em caixas os “perdidos e achados” que diariamente encontra nos balneários e bancadas, trata dos campos, resolve pequenas avarias e abre e fecha as instalações. É uma espécie de faz-tudo do clube.
E quase todos têm características semelhantes.
São rezingões profissionais. Reclamam quando está muito sol, reclamam quando está muito frio ou se o tempo está ameno, reclamam dos jogadores, dos treinadores e das luzes esquecidas acesas, reclamam do tempo que os jogadores demoram a tomar banho, dos atrasos e até reclamam por não terem nada para reclamar. Têm pouca paciência para os atletas mais novos, implicam com os seniores e vivem permanentemente convencidos de que “no tempo deles é que era”. Normalmente fazem-se acompanhar sempre de um molho de chaves no bolso.
Ao mesmo tempo, são das pessoas mais indispensáveis dentro de um clube.
Curiosamente, são também os alvos preferidos das brincadeiras dos jogadores seniores. São mandados ao ar, fechados nos balneários, nas comemorações são quase sempre encharcados por garrafas de água entornadas pelos jogadores em festa.
Há uma relação de provocação permanente, quase familiar, que faz parte da cultura dos clubes. E talvez seja precisamente aí que resida uma parte da sua importância: o “roupeiro” não é apenas um funcionário. É identidade. É memória. É pertença.
Mas há um problema sério que temos de ter em conta: esta figura está em vias de extinção.
Cada vez menos pessoas estão disponíveis para desempenhar estas funções. E percebe-se porquê. Na esmagadora maioria dos casos, trabalham muitas horas, acumulam responsabilidades de enorme exigência física e emocional, recebem valores muito abaixo do mercado, quando recebem, e vivem quase exclusivamente do amor ao clube.
Muitos são voluntários. Outros têm pequenas compensações simbólicas. Alguns têm a “sorte” de viver em casas de função cedidas pelos clubes, numa realidade que faz lembrar um futebol de outros tempos, mais popular, mais comunitário e mais humano.
Só que esse modelo está a desaparecer.
As novas gerações, legitimamente, dificilmente aceitam dedicar a vida inteira a um clube em troca de pouco reconhecimento, baixos rendimentos e desgaste constante. E quando um “roupeiro” sai, raramente aparece alguém para o substituir com o mesmo espírito de missão. E isto é um problema para os clubes amadores.
Porque um clube não vive apenas de treinadores, dirigentes e atletas. Vive também destas figuras invisíveis que seguram diariamente toda a estrutura operacional.
Talvez o verdadeiro valor dos “roupeiros” só venha a ser plenamente reconhecido no dia em que deixarem de existir nos clubes. Quando o último roupeiro fechar a porta do balneário e já não houver ninguém disponível para ocupar o seu lugar, muitos perceberão demasiado tarde que perderam uma das verdadeiras almas do clube. E nessa altura, entre os defeitos e as virtudes que sempre lhes reconhecemos, perceberemos que as virtudes eram muito maiores do que os seus defeitos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.