Em menos de um mês, três dos elementos manifestaram-se. O fogo tem reserva feita para mais tarde.
Na área da engenharia civil, todos os elementos são tratados com o mesmo respeito, no que concerne pelo menos ao desenho das estruturas que suportam os nossos imóveis particulares e públicos.
Desde que tive contacto com a história do sismo de 1755, fiquei com a (falsa) perceção da fragilidade que teríamos face a um fenómeno como esse. No entanto, ao longo da aprendizagem académica, percebi que a engenharia entrou em ação para prevenir os efeitos tão devastadores de tais acontecimentos. Uma visita ao Museu do Terramoto de Lisboa, é para além de interessante, bastante didática nessa matéria.
Desde essa altura, o conhecimento dos materiais e das ações foi sendo cada vez mais profundo, quer através de métodos mais empíricos resultantes de ensaios, como, por exemplo, fez o Marquês de Pombal no Terreiro do Paço, ao criar modelos à escala e simulando a vibração de um sismo (com tropas a marchar à volta dos modelos em cadência ritmada), quer pelas técnicas que foram sendo desenvolvidas. Fruto desse conhecimento, a regulamentação para a construção passou a refletir essa preocupação válida.
Para se ter noção, uma construção comum e devidamente desenhada ao abrigo dos regulamentos terá, em teoria, a capacidade para suportar, sem ruína, a ação de um sismo e meio idêntico ao de 1755, sem outras ações não permanentes, isto é, sem outros eventos extraordinários.
Estas são razões suficientes para estarmos tranquilos, quando adicionalmente verificamos que a engenharia nessa matéria tem sido capaz de responder aos edifícios desenhados pela arquitetura mais arrojada.
Agora vamos pensar de forma prática.
Em edifícios mais antigos, a pressão imobiliária valorizou imóveis bem localizados, com as características da sua conceção, quer em termos das metodologias de construção, quer pela sua tipologia e compartimentação que, sabemos, não são as mesmas de hoje. Mas quem irá querer manter um T6 de 100m2? Pois então há necessidade de redesenhar a arquitetura e a solução construtiva para a conveniência do proprietário.
Com a possibilidade de se realizar obras sem controlo prévio (se não houver intervenção na estrutura), abre-se um precedente discutível. Esta possibilidade de se realizar uma obra sem controlo técnico, uma vez que as entidades licenciadoras não têm capacidade para acudir a tanta pressão e o proprietário com excelentes conhecimentos na área do direito, contabilidade ou em virar frangos transforma o tal T6 no apartamento dos seus sonhos, tudo sem o suporte técnico.
Agora temos uma estrutura desenhada e construída de acordo com o preceito da época, com materiais de duração finita, alterada de forma negligente. Se juntarmos mais umas alterações nos demais apartamentos, então temos uma questão séria, que põe em causa a estabilidade do edifício. Mas não para já.
Com a convergência dos nossos regulamentos nacionais para as normas europeias, há um evidente cuidado em analisar, mas de forma aligeirada, se as estruturas mais antigas estão adequadas às exigências atuais, mas carece de algo mais importante: o conhecimento sistemático do nosso parque habitacional em termos de real capacidade de suportar um sismo. E, sobre isto, uma sugestão: Se temos a necessidade de um certificado energético para garantir conforto térmico, não faria sentido termos um certificado sísmico nas zonas já identificadas como as mais suscetíveis, para garantir essa segurança?
Porque garanto que não vai adiantar nada, se chegar esse dia, fechar os olhos e pensar que estávamos protegidos por um guarda-chuva à prova de bala, mas cheio de remendos.
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