Como se conta no perfil publicado nesta edição, António José Seguro foi praticante federado de atletismo. Nos meetings particulares de atletismo de pista, determinados participantes são contratados para servirem de lebres, estimulando o andamento e o ritmo e proporcionando a possibilidade de se baterem recordes. São as lebres e vão à frente, a “puxar”. Passadas as primeiras voltas, já exaustos, estes atletas desistem, ou ficam para trás, oferecendo o palco e as marcas aos consagrados, que farão a despesa do que resta da corrida. Nestas presidenciais, houve várias lebres – e uma única tartaruga. António José Seguro, no seu passo constante, a trabalhar “a gasóleo”, sem se cansar, foi essa tartaruga. E o recorde aconteceu: foi o mais votado de sempre numa primeira eleição presidencial, em percentagem, e obteve o maior número de votos de sempre, contabilizadas todas as eleições presidenciais da III República. E a perplexidade que se coloca é a seguinte: como é que uma figura que muitos analistas consideravam cinzenta e sem rasgo, com fraca capacidade de mobilização e aparentemente incapaz de empolgar o eleitorado, conseguiu este feito único, levando um país exaurido pelas catástrofes naturais a ir votar (como anotou um frustrado apoiante de André Ventura)… de “barco a remos”?
António José Seguro fez tudo bem. Maturou este passo durante mais de uma década. Preparou-se com antecedência. Identificou uma oportunidade. Percebeu o tempo em que o estilo histriónico, a procura do clickbait, a polarização e a atenção ao algoritmo seriam sempre mais do mesmo e que o alegado cinzentismo era, afinal, o seu principal trunfo. Aquilo que o distinguia dos demais. Na sua intuição política, que nunca perdeu (fazendo, nisso, lembrar Mário Soares…), compreendeu que o País, o País real, das pessoas reais, o País que conhece bem do seu contacto com o interior e da sua (mundi)vivência numa cidade média, estava ansioso por… calma. Por um momento zen. Por um instante para respirar. Por retomar o fôlego.
Cultivou sempre uma campanha redonda, sem ataques nem casos, pela positiva, destacando a imagem de “homem sério”, com vida própria e há muito tempo afastado “desta” política. O PS recalcitrante foi uma vantagem e não uma dificuldade, por reforçar a sua imagem de “homem livre e sem amarras”, como nunca se esqueceu de repetir. O primeiro grande teste surgiu no primeiro debate com André Ventura. Como se sairia o enferrujado político, vindo de um outro tempo, com o “carrinho de choque” dos debates modernos? Que amolgadelas sofreria na sua chapa antiquada? As pessoas já se tinham esquecido: Seguro é um debatente temível, que ganhou dois confrontos televisivos a António Costa, nas primárias do PS, em 2014. No ringue, comportou-se como um pugilista perito na esquiva. Nos contra-ataques, desferiu os seus golpes. Naquele momento, interessava-lhe sobreviver. Terá ganhado aos pontos.
No segundo confronto, o da segunda volta, manteve o estilo, elevando, ligeiramente, o tom. Entendeu, sem precisar de assessorias que lho dissessem, que Ventura era mais forte num ambiente polarizado. Portanto, despolarizou. E, num debate civilizado, Ventura não só não tem nada que o distinga, como fica mais fraco, por não ser esse o seu registo. Um debate assim é criptonite para os seus superpoderes.
O voto em Seguro não foi um voto entusiasmado. Na primeira volta, já tinha beneficiado do voto útil. Na segunda volta, viu o País mobilizado em torno de si para rejeitar André Ventura. Isso explica os recordes. No final, Seguro não foi em ombros, mas chegou à meta como sempre tinha corrido: sozinho.
Com o seu ar de vilã de telenovela, Rita Matias vaticinou uma noite de insónia para Seguro. Ele iria dormir mal, por saber que não ganhou por os eleitores gostarem dele, mas pela rejeição de Ventura. Cândida confissão: se assim foi, como terá dormido, então, aquele que foi rejeitado?
Na própria noite eleitoral, a deputada Rita Matias, com o seu ar de vilã de telenovela, vaticinou uma noite de insónia para António José Seguro. Alegadamente, ele iria dormir mal, por saber que não ganhou desta maneira por os eleitores gostarem dele, mas porque rejeitaram André Ventura. Uma cândida confissão: se assim foi, como terá dormido, então, aquele que foi rejeitado?…
Cabe, neste ponto, referir a importância do resultado de Ventura. Só o facto de ter passado à segunda volta foi uma vitória. E saber que convenceu quase 300 mil eleitores a votarem nele, pela primeira vez, dá-lhe um suplemento vitamínico que ninguém deve menosprezar. Isto nunca teve nada a ver com António José Seguro: esta pugna presidencial só tinha a ver com Luís Montenegro. “Liderámos a direita e, em breve, governaremos o País”, proclamou o líder do Chega.
Na verdade, estas eleições foram um ensaio popular para um futuro bloco central, agora cozinhado pelos dirigentes. A grande massa do eleitorado da direita moderada, transferindo-se para António José Seguro – candidato que nunca identificou como um perigoso radical – indica que a direita, verdadeiramente, não reconhece Ventura como seu líder. Mas também é verdade que, como disse Ventura, este resultado, extrapolado para legislativas, lhe permitiria ser indigitado primeiro-ministro (cerca de 300 mil eleitores votaram nele pela primeira vez). Isso vai acontecer, só não se sabe quando. E, nessa altura, o Bloco Central que já funcionou, pela voz do povo, em presidenciais, funcionará de novo, agora para a formação de um governo que impeça o acesso de Ventura ao poder.
Neste dilema, Luís Montenegro está acossado: tem um país para reconstruir, passadas as tempestades; um PRR para executar e grandes obras públicas para lançar, ao mesmo tempo; não fará uma coisa nem outra sem uma nova entrada “descontrolada” de imigrantes e subsequentes tensões sociais; subsiste o problema da habitação e a rutura de partes do SNS. Em todos estes temas, o desafio de Seguro é não ir na enxurrada. Ele não vai poder ficar a rir-se das dificuldades do primeiro-ministro. Agora, estão no mesmo barco.
À direita, vários protagonistas se movem no tabuleiro. O zumbido parlamentar do Chega elevará os decibéis. Pedro Passos Coelho tem agendados cinco (!) eventos públicos para as próximas semanas. E há um novo comentador, na SIC, em horário nobre, todos os domingos…
É bastante irónico que tenha sido um antigo diretor de informação da estação, Emídio Rangel, a dizer que uma televisão “pode vender um Presidente da República” como quem vende sabonetes e que tenha sido o canal concorrente, a TVI, a vender um (Marcelo), enquanto a primeira tentativa da SIC, na pessoa de Marques Mendes, falhou clamorosamente. Agora, volta à carga com Cotrim de Figueiredo. E o que quer Cotrim? Apostar na deterioração da imagem do novo PR – e contribuir para isso através do seu comentário “independente” – de forma a fazer com que António José Seguro seja o primeiro Chefe de Estado eleito da democracia a não conseguir renovar o seu mandato?… Como diz à VISÃO um dos apoiantes ouvidos para o perfil de Seguro, “a direita entreteve-se tanto a fabricar candidatos que se esqueceu da esquerda – e deu-se mal”. E continua. Há demasiados galos para tão poucos poleiros. À esquerda, não há ninguém. Só uma vaga hipótese de ser relevante, protagonizada por um esquerdista recalcitrante. Mas esse já está em Belém. Chegou lá sozinho e, desde Ramalho Eanes, nunca lá tivemos alguém tão livre de compromissos.