A demissão da Ministra da Adminstração Interna era previsível e inevitável. Maria Lúcia Amaral, desde o inicio, um erro de casting, tem méritos inquestionáveis, tendo sido uma provedora de Justiça exemplar. Mas não tem quatro caracterísitcas fundamentais para a pasta que até hoje ocupou: perfil executivo, autoridade política, liderança e capacidade de comunicação.
A pasta da Administração Interna é uma área de soberania do Estado e é o mais difícil pelouro do Governo. É, também o ministério que, teoricamente, confere mais poder a quem o dirige. É incompreensível que primeiros-ministros politicamente experientes – também aconteceu com António Costa… – não percebam que o lugar deve ser ocupado por alguém tão reconhecido, publica e politicamente, como eles próprios. Um MAI devia ter, sempre, o estatuto de n.º 2 do Governo ou, na presença de uma coligação equilibrada – não é o caso desta AD mas foi o da primeira – o nº 2 do partido liderante do Governo. O próximo ministro da Administração Interna devia ser Hugo Soares. Ele tem o perfil adequado: é reconhecido como n.º 2 do PSD, é da estrita confiança do chefe do Executivo e tem autoridade política e um perfil de homem de ação que o recomenda.
A demissão surge num timing muito curioso: no próprio dia em que o almirante Gouveia e Melo publicou um artigo, no Público, a pedir à ministra que considerasse pedir a sua exoneração. Surgiu, também, dois dias depois da eleição de um novo Presidente da República, obrigando o “velho” Presidente a ir a jogo, numa fase em que está “em gestão”.
Bem estranha, também, foi a forma como foi anunciada a demissão. Foi Marcelo quem a anunciou, numa nota do site da presidência. Dizendo que “aceitou” a demissão da ministra. Até agora, pensávamos que quem aceitava a demissão de ministros… era o primeiro-ministro.
Luís Montenegro, entretanto, convenientemente, livrou-se de Lúcia Amaral na véspera de um explosivo debate quinzenal, no Parlamento. Ele próprio assumiu, transitoriamente, a pasta. Ainda bem: depois do estado em que o País ficou, nas últimas semanas, a Administração Interna – e a Proteção Civil… – precisam de um chefe. E de quem tenha mão em todas aquelas capelinhas.
Sim, a ministra, embora nada tenha feito para as mitigar, também foi vítima das circunstâncias: ela herdou uma Proteção Civil que é um saco de gatos. Uma estrutura cheia de quintas e quintinhas, barões, baronetes e caciques. Ninguém sabe quem manda, quem coordena e quem organiza. Entretanto, os próximos dias esclarecerão se transitoriedade de Luís Montenegro na pasta é efémera ou duradoura. Caso ele não tenha pressa de nomear um novo nome para o MAI, isso indicará que o primeiro-ministro se prepara, com calma, para fazer uma grande remodelação. Tê-la-ia planeado para coincidir com os primeiros dias de António José Seguro em Belém. Vamos ver se aguenta até lá.