Sempre que uma tempestade ganha nome próprio — Kristin, desta vez — repete-se o mesmo ritual mediático. Câmaras apontadas ao centro de Lisboa, diretos da Marginal, gráficos sobre o trânsito e declarações apressadas com a capital como pano de fundo. Parece que o País começa e acaba ali. O resto é rodapé.
Mas Portugal não é só Lisboa. E a tempestade Kristin voltou a expor uma injustiça antiga: a invisibilidade do resto do País.
Viver fora de Lisboa é carregar um carimbo para o resto da vida. Um selo silencioso que nos identifica como os parentes pobres do País. Aqui, viver é sinónimo de trabalho, resiliência e luta. Não temos oportunidades ao virar da esquina — temos de as criar. Não somos coitadinhos. Somos gente de raça, que não se resigna.
Enquanto no litoral a tempestade se mede em constrangimentos de mobilidade, no interior mede-se em perdas reais: colheitas destruídas, acessos cortados, aldeias isoladas. E, como tantas outras vezes, a resposta foi lenta, descoordenada e reativa. Não por falta de avisos — eles existiram — mas por falta de preparação, de planeamento e de vontade política para olhar para além do eixo habitual.
Os acessos continuam a ser uma fragilidade estrutural. As estradas são caras e nem sempre boas. Não há metro, não há Uber, não há alternativas. Ainda se depende da boleia do vizinho ou da carreira para a cidade, quando ela existe. A desertificação só preocupa quando convém, servindo de palco a políticas avulsas de natalidade ou anúncios de ocasião, sem impacto duradouro. Basta olhar para o mapa do país: continua inclinado para o litoral.
A Kristin não criou esta desigualdade. Apenas a confirmou. Confirmou um Estado que reage tarde, que chega depois do prejuízo feito e que trata a exceção como regra. Fora de Lisboa, a emergência é permanente, mas nunca é prioritária.
Fala-se muito de coesão territorial, mas ela não se faz em discursos nem em conferências de imprensa após cada intempérie. Faz-se com investimento continuado, serviços públicos resilientes e capacidade de antecipação. Faz-se quando a estrada cortada numa aldeia do interior tem o mesmo peso político que uma inundação em Lisboa.
Não matem a nossa essência. Nós vamos reerguer-nos — sempre o fizemos. Mas não matem o resto do país por omissão, impreparação ou memória curta. Isto não se resolve em dias nem em ciclos mediáticos. Vai demorar anos.
Portugal não é só Lisboa. Falta, finalmente, governar como se isso fosse verdade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.