O cancro do pulmão continua a ser um dos cancros mais prevalentes e o mais letal dos cancros em Portugal e no Mundo. No entanto, ao contrário do que muitas pessoas pensam, este é também um dos cancros onde a prevenção pode ter maior impacto.
O tabagismo é, de forma inequívoca, o principal fator de risco para o cancro do pulmão. Fumar não aumenta apenas o risco de cancro, mas está associado a múltiplas doenças respiratórias e cardiovasculares, com impacto direto na qualidade e na esperança de vida. A cessação tabágica é, simultaneamente, a mais eficaz medida de prevenção primária e a mais poderosa ferramenta de saúde pública disponível. Cada cigarro que não se fuma conta — e nunca é tarde para parar.
Mas a prevenção não termina aí. Em pessoas com risco elevado para cancro do pulmão, nomeadamente fumadores e ex-fumadores, existe hoje uma oportunidade crucial: o rastreio do cancro do pulmão. A realização de tomografia computorizada de baixa dose permite identificar o cancro do pulmão em fases iniciais, quando ainda é tratável e potencialmente curável e fazer a diferença, salvando vidas.
A prevenção beneficia também da aplicação de tecnologias emergentes, nomeadamente a utilização de inteligência artificial, que ajuda a identificar comportamento suspeito mesmo em alguns nódulos de reduzidas dimensões. Também foram desenvolvidos e validados alguns modelos recentes que permitem um diagnóstico integrado, através da análise de dados clínicos e de risco, e estratégias personalizadas de prevenção abrem novas possibilidades para identificar quem mais beneficia de rastreio e acompanhamento.
Neste caminho, o papel das instituições de saúde é central: promover literacia em saúde, garantir acesso equitativo a programas de cessação tabágica e de rastreio de cancro do pulmão, e investir em inovação baseada em evidência. Já passámos a fase de perceber se o rastreio traz benefício. A evidência científica de estudos de grande escala mostra que o rastreio reduz a mortalidade por cancro do pulmão e a mortalidade global, esta sobretudo à custa da redução de mortalidade por doença cardiovascular, mudando o prognóstico de uma doença que, lamentavelmente, continua a ser uma tragédia por ser diagnosticada demasiado tarde na grande maioria dos casos.
Mas a prevenção é também uma responsabilidade coletiva. A comunidade, as famílias, as escolas e os locais de trabalho têm um papel essencial na mudança de comportamentos e na redução do estigma associado ao cancro do pulmão.
Falar de cancro do pulmão é falar inevitavelmente de rastreio de cancro do pulmão e cessação tabágica e de prevenção através de escolhas informadas. É reconhecer que muitas vidas podem ser salvas antes de a doença surgir — ou antes que seja tarde demais.
Prevenir não é apenas melhor do que tratar. No caso do cancro do pulmão, pode ser a diferença entre viver e não viver.
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