Nascer e crescer na Marinha Grande não é fácil. É uma terra traumatizada por séculos de exploração. Motor de desenvolvimento industrial, cresceu em torno do vidro e foi sistematicamente esquecida. A Marinha Grande foi-se habituando a ser ignorada à medida que se foi instalando um rancor como pano de fundo para uma cidade que se foi degradando sem que ninguém mexesse uma palha.
Cresci numa casa colada ao pinhal. Tentei fazer várias casas de árvore, sempre sem sucesso, mas consegui descobrir pistas de bicicleta perfeitas entre os pinheiros e as silvas. A terra preta, solta, entrava-me pelas narinas quando jogava futebol e era tão difícil de sair como as nódoas de resina que resistiam a tudo menos ao Nodeti e à pedra-pomes.
A casa era paredes-meias com o pavilhão do Sporting Clube Marinhense, onde se jogava hóquei em patins e de quinze em quinze dias nos sentávamos e batíamos palmas até nos doerem as mãos.
A Marinha Grande era uma terra onde se andava de bicicleta não por qualquer tipo de consciência ecológica ou moda hipster, mas por necessidade. Alguns já tinham subido um degrau na vida, o que lhes permitia andar de mota e outros, menos, andavam no seu Renault 5.
Nos dias de praça, o centro da cidade, área pedonal, enchia-se de gente que ia à drogaria do Leonel, ao Bom Preço, à loja das rações ou ao próprio mercado. Em dia de festa, chegava-se a casa com as compras mas também com um frango da Pensão Julião.
O cheiro da drogaria que agora reconheço como sendo a anis misturava-se com o cheiro das rações, o cheiro da peixaria do mercado, o cheiro das galinhas e dos coelhos vivos, o cheiro da fruta e o cheiro do pinhal que era omnipresente. Na Marinha Grande cheirava sempre a pinhal mais qualquer coisa.
Era pelo pinhal que se fazia o caminho para a praia de São Pedro de Moel, pela estrada aos ésses onde famílias paravam para fazer pic-nics na Quinta Feira da Ascenção e jovens perdiam a vida em noites mais aceleradas.
Quase nenhuma destas referências faz hoje qualquer sentido a quem visite a cidade. Grande parte da cidade morreu, tornando-se irreconhecível a quem a visita de vez em quando. O que não morreu pela mão do tempo e de uma ideia de país moderno que varre para debaixo do tapete cidades como a Marinha Grande, morre à conta de catástrofes.
Os pinheiros que sobreviveram milagrosamente ao incêndio de 2017 foram agora como que decepados pelos ventos. O pavilhão do Sporting Clube Marinhense que se manteve muito depois de já não me ter como vizinho, foi agora completamente dizimado.
A falência, uma a seguir à outra, de fábricas e comércio deixou aquela cidade abandonada à sua sorte e quem lá ficou resiste com valentia a um destino inelutável. Não mentirei. Desde que me conheço que desejo violentamente sair daquela terra e isso deve-se ao facto de tê-la visto a triturar demasiadas vidas.
O orgulho da cidade vinha da sua indústria vidreira até começarem a falir fábricas, da indústria dos moldes até começarem a encerrar essas fábricas também, do pinhal até ter ardido. Agora o orgulho vem de onde?
Muito do que tem subsistindo ao longo dos anos foi agora destruído. O desespero de quem faz as contas a quanto tempo estará sem faturar, quanto tempo demorará até que as companhias de seguros ajam e em que medida isso será suficiente, quem conseguirá manter o emprego e que negócios já em dificuldade terão capacidade para sobreviver a isto é confrontado com governantes que alternam entre trabalhar na invisibilidade e transformar a situação em golpe de marketing.
As visitas dos governantes a seguir à catástrofe mostraram bem algo evidente, apesar de nunca ser dito: a Marinha Grande é uma terra de que, à semelhança de outras terras semelhantes, os nossos governantes se envergonham.
Outrora polos industriais pujantes que enriqueciam o país à custa de operários, do seu suor, da sua audição e das suas articulações, agora já não cabem na ideia de país virado para o futuro que nos querem vender com o entusiasmo de vendilhões de banha da cobra.
Este tipo de terras não cabe no país dos unicórnios, dos empreendedores, dos brunches e dos hábitos culturais irónicos. Os governantes repetem até à exaustão que os impactos da tempestade são muito mais graves do que o que se pensava no início porque os próprios os menosprezaram até serem obrigados a ver com os seus próprios olhos as pessoas em cima dos telhados, aflitas, a tentar remendar os buracos antes que começasse a chover de novo.
Há lições específicas a tirar desta catástrofe, é verdade. Mas há lições ainda mais profundas a tirar desta forma como se olha para o país a partir de Lisboa, como se estas terras fossem aqueles familiares que nos envergonham em frente dos amigos.
Lamento, marinhenses. Tiveram azar. O azar foi terem deixado de fazer parte da imagem que, em Lisboa, fazem do País. Em vez de terem antigas instalações industriais reconvertidas em mercados de roupa vintage e gelados veganos, deixaram-nas ao abandono ou, ainda pior, continuam a tentar que produzam.
Para além de toda a solidariedade que ninguém naquela zona enjeitará, é preciso que, de uma vez por todas, se perceba que há um país que não pode ser esquecido mesmo que ele envergonhe estes decisores políticos fanáticos da seita do empreendedorismo. As pessoas sentem-se abandonadas e aqui está uma perceção à qual deviam dedicar alguma atenção.
A Marinha Grande é uma terra à qual tem sido roubada toda a identidade. É uma terra de gente que trabalha que tem o azar de viver num país que menospreza a gente que trabalha. E isso custa caro em alturas como esta.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.