Entramos no mercado de trabalho cheios de objetivos, mas nem sempre com um plano financeiro bem definido. A carreira e a progressão profissional tendem a ser o foco principal e, associadas a elas, surgem preocupações com a estabilidade e com momentos importantes da vida, como as férias, a família ou a compra da casa e do automóvel. Muitas pessoas poupam a curto prazo para diferentes objetivos, pelo que só se apercebem, ao aproximar-se o fim da vida ativa, de que dedicaram pouco tempo a outro aspeto igualmente fundamental: o planeamento da reforma.
A iliteracia financeira manifesta-se, desde logo, na forma como habitualmente refletimos sobre a reforma. Para muitos, este é um tema que parece distante e que, em certos casos, está associado a uma conotação negativa.
A verdade é que, chegados à idade da reforma, o tempo para corrigir decisões é curto e as opções já são muito limitadas. É nessa altura que muitos descobrem que não sabem ler um recibo de vencimento, que desconhecem como funciona o IRS ou que nunca refletiram sobre o impacto real dos impostos no seu rendimento ao longo da vida e que, por isso, tomaram decisões menos acertadas a nível financeiro. Esta vulnerabilidade é ainda mais notória quando se perde um familiar ou um apoio importante que, normalmente, tratava destes assuntos. Esta é a realidade de muitas pessoas que deixam de trabalhar, mas a acusação não deve fazer parte do caminho para o conhecimento. Pelo contrário, há que proporcionar ferramentas para que seja possível tomar decisões mais estratégicas, independentemente da fase da vida ou da idade.
Estas ferramentas devem ser colocadas à disposição de pessoas em idade de reforma, através de formações e sessões informais de esclarecimento de dúvidas, e pensadas para pessoas em diversos contextos socieconómicos. No entanto, é muito importante que o conhecimento se estenda a todas as faixas etárias, reforçando a importância do conhecimento ao longo da vida. A nível nacional, a criação do Plano Nacional de Formação Financeira e o Referencial de Educação Financeira foram um valioso contributo para a sensibilização destes temas e que colocou a literacia financeira no currículo da disciplina de Educação para a Cidadania. É também nesta fase, e especialmente na entrada no mercado de trabalho, que se deve sensibilizar para a importância da preparação da reforma antecipada e, acima de tudo, desmistificar a ideia de que só devemos pensar na mesma quando deixamos de trabalhar.
Por isso, e por a literacia financeira ser um assunto para todas as idades, talvez esteja na altura de mudarmos o paradigma. Em vez de perguntarmos “quanto vou receber quando me reformar?”, devíamos começar por perguntar “o que estou a fazer hoje para garantir esse amanhã?”. A resposta passa, inevitavelmente, pelo conhecimento: saber como funcionam os impostos, como gerir rendimentos, perceber como é possível investir e planear a longo prazo.
Há um provérbio popular que diz que “a melhor altura para plantar uma árvore foi há 20 anos; a segunda melhor altura é agora”. Há que apoiar a mudança e promover a literacia junto dos mais jovens, e com a maior antecedência possível. No entanto, e como não é possível voltar atrás no tempo, aproveitemos o agora para transformar a forma como olhamos para o dinheiro e para a poupança. Afinal, o agora é o primeiro degrau do futuro. Passemos à ação, sem complexos e sem culpas.
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