O almirante Gouveia e Melo começou a corrida presidencial já eleito. Lembram-se disso? Antes sequer de partilhar um pensamento político que fosse. Marques Mendes seria o seu principal concorrente. O político profissional que há anos fazia a travessia televisiva que o colocaria, pelo precedente Marcelista, em Belém.
Chegou a campanha e Ventura tentou apoiar o almirante que, ao que parece, durante um almoço terá recusado ser colado a partidos e fez disso a sua bengala discursiva. Era um princípio com potencial mas faltou-lhe juntar o poder das ideias.
Já Marques Mendes, que não reunia consenso no PSD, intitulava-se como independente e falava ao lado de ministros nos comícios. Dizia-se fora da vida política, mas desde o fatídico debate com o almirante, nunca soube responder à simples pergunta: “e tu, o que fazes?”
Os portugueses ficaram divididos entre um homem com jeito para a logística e poucas ideias e outro, cheio de ideias, mas não necessariamente boas para o País.
Avançou então Ventura que, como seria de esperar, vinha rebentar com o sistema. O líder partidário que concorre a mais eleições em Portugal, que tem uma “entrevista exclusiva” semanal quase garantida no horário nobre, que exige lugares na autarquia de Lisboa para membros do partido e que tem quase 30% do grupo parlamentar com problemas com a justiça… quer mudar o sistema. A começar pela Constituição como o próprio explicou.
A esquerda dividiu-se entre três candidatos bem preparados e com conhecimento dos deveres presidenciais, mas com poucas hipóteses de fazerem, sequer, prova de vida dos respetivos partidos. Com a viragem à direita do País teria sido interessante, julgo, um consenso mais alargado e um perfil comum.
Cotrim foi a surpresa, na minha opinião. Saiu rapidamente do habitual discurso liberal, mostrou uma vontade de fazer sem cair nos erros de tentar explicar as contradições do partido. Deu uns beijos a velhinhas nos mercados e uns pontapés na bola com os miúdos que com ele fizeram campanha. Fingiu que percebia a pobreza alheia e tentou ser um de nós. De repente, estava na discussão da segunda volta, quando cometeu três erros capitais. O apoio a Ventura, a dificuldade de lidar com a acusação de assédio sexual e a carta a Montenegro.
As redes sociais que colocaram Cotrim no topo foram as mesmas que o julgaram.
Portugal começou então a virar-se para Seguro. O tal que não cativa e que dificilmente encanta. Mas que tinha ideias e objetivos mais ou menos definidos. Que respondeu vezes sem conta qual foi a sua profissão desde que Costa o apunhalara. Que ouviu insultos sem responder nos debates. E que viu, perante a possibilidade de uma segunda volta entre Ventura e Cotrim, os votos da esquerda a serem desviados para si.
Ele, António José Seguro, a quem alguns ilustres do PS não reconheciam capacidades para o cargo e que apenas reuniu o partido quando as sondagens começaram a trazer o aroma do poder. Ao centro nada de novo.
Enquanto escrevo isto já André Ventura deu o mote para as próximas duas semanas, publicando uma foto de António José Seguro com José Sócrates. Ventura é fácil de ler porque vai sempre atrás da mensagem mais simples, difamatória e populista. E com sucesso, reconheça-se.
Já li que Ventura estará no limite da sua votação com estes 24% mas não concordo. Acho que tanto entre os votantes de Cotrim como de Marques Mendes, Ventura conseguirá arrecadar o suficiente para fazer Seguro correr pelo lugar.
O que me parece é que, tal como na primeira volta, e tendo em conta o lamaçal em que se tornou a política em Portugal, os eleitores continuarão a preferir votar em alguém que, pelo menos, lhes parece ser honesto e decente.
Aquilo que há 40 anos seria o ponto de partida para se ser, sequer, candidato, hoje já é uma raridade.
Dizer que Seguro é pouco excitante faz-me lembrar dos idos em que o casaco beje de Obama abria noticiários. Tenho saudades desses tempos e de problemas desse calibre.
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